domingo, 20 de novembro de 2016

As “cinco vias da prova da existência de Deus” na Summa Theologica de Santo Tomás de Aquino

A Summa Theologica, escrita por Santo Tomás de Aquino entre os anos de 1265 a 1273, é considerada uma das principais obras filosóficas da escolástica, e constitui uma das bases da doutrina dogmática da Igreja Católica Romana.

Logo no inicio do primeiro livro, em sua questão segunda, o autor aborda a temática “sobre la existência de Dios”[1]. É justamente nesta questão, mais especificamente em seu artigo terceiro, intitulado: “¿Existe o no existe Dios?”[2], que o Aquinate exporá as cinco vias da prova da existência de Deus. Temática que abordaremos no presente trabalho.

Porém, lendo a segunda questão do primeiro livro da Summa Theologica, achamos importante fazer um breve apanhado do que é tratado nos dois primeiros artigos: “Dios, ¿es o no es evidente por si mismo?”[3] e “La existencia de Dios, ¿es o no es demostrable?”[4].

1 ARTICULO PRIMERO: DIOS, ¿ES O NO ES EVIDENTE POR SI MISMO?

No primeiro artigo, Santo Tomás começa por elencar as objeções referentes à questão se é possível deduzir se Deus existe por si mesmo. As objeções afirmam que é possível a divindade ser evidenciada apenas por si mesma, sem necessitar, portanto, de outros meios. O autor então passa a refutar estas três objeções, a fim de defender que a evidenciação natural não é eficiente para o conhecimento pleno de Deus.

Primeiramente objeta-se que “o conhecimento de que Deus existe está impresso em todos por natureza”[5], pois se dizem evidentes as coisas cujo conhecimento nos são co-naturais. O Doutor Angélico vai dizer que tal conhecimento geral, e sem confusão, da existência de Deus se dá pelo fato de que em nossa natureza associamos a felicidade humana a Ele. Porém, a isto não se pode chamar de conhecer a Deus, pois, entrementes, alguns homens colocam a sua bem-aventurança no prazer, no dinheiro, no poder, etc. E assim, Deus não pode ser conhecido de forma espontânea por todos os homens.

Em segundo, seria possível conhecer a Pessoa Divina a partir do conhecimento do seu nome. Pois ao dizer o nome das coisas, estas são automaticamente identificadas e tidas como existentes. A esta afirmação, o Aquinate contradiz, defendendo que é possível que alguém que escute a palavra “Deus” não entenda de forma plena o que com ela se expressa. Não compreenda que, o que ela significa, se dá na realidade e não somente no conhecimento. Ou ainda, que se suponha que na realidade exista algo maior do que aquilo que possa ser pensado, o que não é aceito pelos que não acreditam que Deus exista.

Por fim. No evangelho segundo São João, o Cristo apresenta-se como sendo a verdade[6]. A verdade existe sempre! Assim afirma Tomás ao exemplificar que, se uma pessoa diz que a verdade não existe, e, se isto for correto, torna-se assim uma verdade, passando assim a verdade a existir. Portanto, se a verdade existe, e Deus é a verdade, Deus existe. A Isto, Santo Tomás rebaterá dizendo que a verdade existe e que é evidente por si. No entanto, o conceito de verdade absoluto, que seria atribuído a Deus, este não é evidente.

Assim, o Boi Mudo da Sicília, lança por terra as afirmações daqueles que afirmam o conhecimento de Deus apenas de forma natural.

2 ARTICULO SEGUNDO: LA EXISTENCIA DE DIOS, ¿ES O NO ES DEMOSTRABLE?

Neste segundo artigo, apresentam-se os argumentos, através dos quais se defende que Deus não pode ser conhecido pelo uso da razão. Tais afirmações, como no artigo anterior serão refutadas por Santo Tomás. Vejamos o que se diz.

Na primeira objeção coloca-se que a existência de Deus não pode ser demonstrada porque ela é artigo de fé, e a fé trata de coisas não evidenciáveis. Como refutação o Doutor Angélico (2001, p. 110) descreve que “La existência de Dios y otras verdades que de Él pueden ser conocidas por la sola razón natural, tal como dice Rom 1,19, no son artículos de Fe, sino preámbulos a tales artículos”[7].

A segunda aponta que a base do processo demonstrativo é evidenciar, conhecer e mostrar o que a coisa É. Porém, de Deus não podemos afirmar o que ele É, mas, segundo São Damasceno e a teologia apofática, somente o que ele Não É. Sendo assim, Ele não pode ser demonstrado. A isto, o Boi Mudo da Sicília rebate explicando que, quando se busca demonstra a causa de alguma coisa pelo efeito produzido por ela, torna-se necessário usar o efeito como definição da causa para provar sua existência. Ou seja, usar o que Deus É para defini-lo, pois “Porque para probar que algo existe, es necesario tomar como base lo que significa el nombre, no lo que es; ya que la pregunta qué es presupone otra: si existe”[8] (AQUINO, 2001, p. 110).

Como terceira objeção, aparece a tese de que para demonstrar a existência de Deus seria necessário lançar mão de seus efeitos, sua obra criada. Porém os efeitos não são proporcionais a Ele, haja visto, que Deus é infinito e os efeitos, via de regra, são finitos, o que não gera proporção. Desta maneira a existência divina não poderia ser demonstrada. Em contraposição, afirma Santo Tomás que dos efeitos não proporcionais a causa não se pode ter um conhecimento exato da mesma. No entanto, isto não impede que se demonstre de forma verídica que a causa existe.

Ainda sobre a relação causa e efeito, diz o Aquinate que o conhecimento dá-se em dois caminhos:

Una, por la causa, que es absolutamente previa a cualquier cosa [...] Otra, por el efecto, que es lo primero con lo que nos encontramos; pues el efecto se nos presenta como más evidente que la causa, y por el efecto llegamos a conocer la causa[9] (AQUINO, 2001, p. 110).

3 ARTICULO TERCERO: ¿EXISTE O NO EXISTE DIOS?

Chegamos finalmente ao ponto que nos é essencial. Aqui Santo Tomás apresenta os argumentos daqueles que defendem a não existência de Deus, dando-lhes como resposta as cinco provas racionais da existência divina. Comecemos por apresentar quais são as objeções dos não crentes aos crentes.

3.1 Objeções

A primeira objeção apresentada diz que se duas coisas são postas em contrário, e uma delas é infinita, a outra é superada. Portando ao dar-se a Deus valores absolutos, como o sumo bem, por exemplo, implica em afirmar que o mal não existiria. Entretanto o mal existe no mundo, o que prova a não existência de Deus.

O segundo argumento afirma que tudo as coisas que existem no mundo, supondo que Deus não existisse, encontrariam sua razão de ser em outras coisas. Por exemplo, o que é natural encontraria sua razão na natureza, ou o que é intencional na razão e na vontade humana. Assim sendo não há necessidade de se recorrer a existência de Deus.

3.2 Cinco vías da prova da existência de Deus.

A fim de refutar de forma racional esta tese. Pois Santo Tomás diz que aos crentes ele não precisa explicar de Deus de forma Racional, pois já crêem, porém aos descrentes sim, pois o que tem em comum é a razão. O Aquinate vai formular cinco via, caminhos, para provar, racionalmente, a existência de Deus.

3.2.1 Via do primeiro motor.

O movimento é um evento naturalmente perceptível. As coisas em movimento passam constantemente da Potência ao Ato, tendo que observar uma lei essencial que diz que uma coisa ao pode ser ato e potência de si mesma ao mesmo tempo. Por exemplo, o fogo que em ato é quente, não pode ser potência de quente enquanto é quente em ato. Ao ser quente em ato o fogo só pode ter como potência a tibieza.

Portanto, o que se move necessita ser movido. E este que move ser movido por sua vez por outro, e assim sucessivamente. Porém não se pode levar indefinidamente essa sequência de Potência que leva ao Ato. Levando a termos que admitir que deve existir algo que seja o motor que move todas as coisas sem ser movido, que é reconhecido como Deus.

3.2.2 Via da causa eficiente.

Todas as coisas tem uma ordem de causas eficientes. Porém não podemos deduzir que algo possa ser causa eficiente de si mesma, pois existiria antes de ter existir.

No entanto, todas as coisas existentes necessitam ser causadas por outra causa, uma causa original. Se fizesse um processo de regressão em busca da causa original não conseguiríamos encontrar. Mas, se dissermos que não existe essa causa, as demais não poderiam existir, pois dependem da causa eficiente original. Desta forma a causa não causada de todas as causas só pode ser Deus.

3.2.3 Via do contingente e do necessário.

No mundo existem realidades, e muitas destas nem sempre existiram. Por isso as chamamos de Realidades Contingentes. Contudo como nada surge no nada, é necessário que existam realidades que sempre existiram e que chamamos de Necessárias.

Se procedermos na investigação das Realidades Necessárias da mesma forma que procedemos na busca pela Causa Eficiente, teríamos que afirmar que existe algo que é absolutamente Necessário, cuja necessidade não depende de outro, mas está em si mesma. Esta Realidade Necessária de onde provém todas as Realidades Contingentes é o Divino.

3.2.4 Via dos graus de perfeição.

Todas as coisas no mundo possuem graus de valores. Dizemos que existem maiores ou menores verdades, coisas que são mais ou menos belas, mais ou menos boas, etc.

Esta hierarquia de valores se dá por comparação, das coisas conhecidas, com um valor absoluto de verdade, beleza, bondade, etc. Sendo assim, baseando-se no II Livro da Metafísica, o Doutro Angélico vai afirmar que a coisa que possui o valor absoluto é aquela que cria todas as demais em escalar diferentes.

Dado isto, demonstra que aquilo que possui o valor em grau absoluto de todas as coisas em seu existir é Deus.

3.2.5 Via da finalidade do ser.

Tudo o que existe no mundo criado tende a realizar um fim, inclusive as que não são dotadas de razão ou vontade. Sendo assim, o que é que faz com que tudo e especialmente estas ultimas, consigam realizar suas funções e chegar a sua finalidade?

È claro e evidente que algo as leva a este termo, que algo as ordene, pois elas não cumprem seu papel ao acaso.

Este ser que ordena as demais coisas também é Deus

3.4 Conclusão das refutação das objeções.

Deus é o motor que move às coisas, que as causa, que sendo Necessário as cria em sua contingência, que lhes dá parâmetro aos graus de perfeição e que lhe orienta a sua finalidade.

Refutando as duas objeções iniciais, a partir das cinco vias, o Aquinate afirma, usando as palavras da Águia de Hipona[10] que “Dios, por ser el bien sumo, de ninguna manera permitiría que hubiera algún tipo de mal en sus obras, a no ser que, por ser omnipotente y bueno, del mal sacara un bien”[11]. Ou seja se na obra da criação existir algum mal, é fruto da bondade de Deus, que do mal intenciona fazer o bem. Poderíamos exemplificar, com nossas palavras de forma religiosa, que no caso da permissão dada pelo Pai a morte do Filho Unigênito, sobreveio o bem da redenção da criação.

Quanto a segunda objeção, Santo Tomás diz, “como La naturaleza obra por un determinado fin a partir de la dirección de alguien superior, es necesario que las obras de la naturaleza también se reduzcan a Dios como a su primera causa”[12] (AQUINO, 2001, p. 113).
   
CONCLUSÃO

Santo Tomás descreve e refuta de forma clara e objetiva, baseando-se nos grandes nomes da filosofia e teologia, todas as teses que afirmavam ser impossível chegar ao conhecimento do divino pela via da razão.

As cinco vias da prova da existência de Deus, são um monumento que sustentou e sustenta a fé da Igreja, que Sá do cristianismo, desde sua elaboração. Deixando claro e evidente a genial ide e grandiosidade do frade dominicano que nos tempos apelidados foi chamado de Boi Mudo da Sicília, cumprindo assim a profecia de Santo Alberto Magno de que “Quando este boi mugir, o mundo inteiro ouvirá o seu mugido”. Assim o mugido de Tomás ecoa ate nós hoje.
REFERÊNCIA

AQUINO, Santo Tomás. Suma de Teología. Tomo 1. 4 ed. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 2001.



[1] Sobre a Existência de Deus.
[2] Existe ou não existe Deus?
[3] Deus, é ou não é evidente em si mesmo?
[4] A existência de Deus, é ou não é demonstrável?
[5] S. JUAN DAMASCENO, De Fide Orthodoxa l.1 c.1: MG 94,789.
[6] Cf. João 14,6
[7] A existência de Deus e outras verdades que d’Ele podem ser conhecidas somente pela razão natural, tal como se diz em Rm 1,19, não são artigos de Fé, e sim preâmbulos a tais artigos.
[8] Porque para provar que algo existe , é necessário tomar como base o que significa o nome, não o que é. Já que a pergunta Que é pressupõe outra: se existe.
[9] Uma pela causa que é absolutamente prévia a qualquer coisa [...] Outra pelo efeito, que é o primeiro com que nos encontramos; pois o efeito apresenta-se mais evidente que a causa, e pelo efeito chagmao a conhecer a causa
[10] Santo Agostinho
[11] Deus por ser o bem supremo, de nenhuma maneira permitiria que houvesse algum tipo de mal em suas obras, a não ser que, sendo onipotente e bom, de um mal tirasse um bem.
[12] Como a natureza opera por um determinado fim a partir da determinação de algo superior, é necessário que as obras da natureza também se reduzam a Deus como a sua primeira causa

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