terça-feira, 28 de junho de 2016

O altar e a orientação da oração na liturgia!

Públicado originalmente em 13/01/2014

A partir do início do pontificado de Bento XVI, e de sua implementação da "Reforma da Reforma", inspirada na "Hermenêutica da Continuidade" entre o Concílio Vaticano II e toda a tradição anterior, surgiram alguns questionamentos do que seria certo e errado aplicar, da liturgia pré-conciliar, na forma reformada.

Uma dessas dúvidas é: qual a "orientação" deve ser aplicada a liturgia? 

Bento XVI celebrava na capela privada do palácio apostólico, na capela Sistina, e na Capela Paulina, na posição Versus Deum. Porém nas demais celebrações sempre celebrou Versus Populum. Com o pontificado de Francisco, até agora, a tradição foi mantida. Ao celebrar no altar onde está sepultado São João Paulo II, o papa rezou Versus Deum. E ao batizar as crianças ontem (12) na Capela Sistina voltou a fazer uso da mesma posição.

Então. Qual posição devemos usar na liturgia?

Para tentar lançar uma luz sobre o tema, passo há escrever um pouco sobre a "orientação" na liturgia, de acordo com os escritos do Papa Emérito Bento XVI, no seu celebre livro Introdução ao Espírito da Liturgia, escrito em 1999, quando ainda era cardeal da Santa Igreja Romana. A base teórica para este nosso breve ensaio encontra-se no Capítulo III, da segunda parte, da obra citada.
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O cristianismo não é uma religião nascida do nada, como em um passe de mágica. Nossa fé deriva da crença de um Deus que se tornou carne e habitou entre nós. Nesse ponto, precisamos ver a encarnação divina não só com um olhar teológico mais sociológico.

Cristo nasceu em uma sociedade: a Hebraica. Nela ele foi educado: conheceu a língua, a gastronomia, as danças, a festas. Ali aprendeu a viver sua fé nos costumes de seus "pares". Quando iniciou sua missão continuou praticando sua crença, indo ao templo e a sinagoga, ensinando de acordo com o que estava no mais íntimo da lei e dos profetas (Mateus 5,17). Ao chamar seus discípulos, que continuariam sua missão, estes também faziam parte da mesma comunidade e meio sócio-cultural, possuindo os mesmos costumes.

Sendo assim, nada mais natural que as primeiras comunidade manterem-se muito dos costumes judaicos herdados ao longo dos séculos, adaptando-os, onde fosse possível, a novidade da mensagem de Jesus.

1. A orientação da oração na Igreja dos primeiros séculos.

As primeiras décadas da história do cristianismo, conhecido como "Tempos Apostólicos", foram marcadas por uma convivência entre as duas formas de liturgia: Hebraica e Cristã. Os apóstolos realizavam a Fractio Panis (fração do pão) e iam ao templo para orar, como era o seu costume judaico (At 3, 1). Essa coexistência faz com que os primeiros cristãos assumam costumes da liturgia judaica na liturgia cristã. Por exemplo, a Fractio Panis passa a ter também a leitura de passagens da Escritura, elemento da liturgia sinagogal.

Essa influência atinge também a dimensão da orientação  da oração na liturgia. Como todas as sinagogas eram voltadas para Jerusalém, onde estava o templo, e, portanto, onde se dava a revelação de Deus, simbolizada na presença no propiciatório da Arca da Aliança, também os cristãos passaram a rezar voltados para Jerusalém, onde se deu a revelação definitiva de Deus na pessoa Jesus Cristo, o Logos Divino que se fez carne e redimiu o mundo através de sua paixão, morte e ressurreição.
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"Uma coisa permaneceu clara para toda a cristandade até o segundo milênio avançado: a oração voltada para o Oriente é uma tradição que remonta as origens, é expressão fundamental da síntese cristã de cosmos e história, de apego à unicidade da história da salvação e de caminho rumo ao Senhor que vem" (RATZINGER, 1999, p.65).
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Mas você pode dizer: "Não precisamos mais nos voltar para Jerusalém. Deus é espírito. Ele está em toda parte". Sim, verdadeiramente Deus é espírito e está em toda parte. Esta convicção é muito forte nos tempos modernos, e encontra na difusão/universalidade da Igreja no mundo uma forte justificativa. Porém, "O símbolo cósmico do sol que nasce exprime, ao mesmo tempo, a universalidade acima de todos os lugares e mantém a concretude da revelação de Deus. a nossa oração se coloca, assim, na procissão dos povos rumo a Deus" (RATZINGER, 1999, P. 66). Por este motivo os cristãos começaram a ver na abside (parede de fundo da Igreja), o simbolismo do oriente físico, o local de onde o sol nasce. Que por sua vez simboliza o oriente espiritual, o local de onde Cristo, Sol dos sois e Senhor dos senhores, retornará. Por este motivo os altares passaram a ser construídos na abside das igrejas (ad orientem), a fim de que o Sacerdote e os fiéis rezassem voltados para a mesma direção, voltados para Deus (versus Deum). "Para usar a expressão de um dos padres da constituição do Concílio Vaticano II, J. A. Jungmann, trata-se precisamente de uma mesma orientação do sacerdote e do povo, conscientes de que caminham juntos em direção ao Senhor" (RAZINGER, 1999, p. 70).

2. A mudança da orientação na execução da Reforma Litúrgica e sua problemática.

O fruto mais difundido da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II é a liturgia orientada versus populum (voltado para o povo). No entanto, nem a Constituição Sacrosanctum Concilium, como nenhum outro documento conciliar, fala sobre a mudança da orientação litúrgica. Segundo os responsáveis pela execução da Sacrosanctum Concilium, a posição versus populum seria a legítima orientação do Rito Romano por dois aspectos: Em primeiro lugar, porque as Igrejas mais importantes e antigas de Roma tinham o altar disposto de tal forma que o celebrante sempre estava voltado para o povo. E em segundo lugar, esta disposição implicaria uma nova visão da essência da liturgia, não mais como simplesmente memória do Sacrifício de Cristo, mas, como refeição comunitária. Afinal a Última Ceia não foi isto? Uma refeição comunitária entre Jesus e os doze?

Estes dois argumentos caem por terra rapidamente.

Com relação à arquitetura das igrejas romanas, descobriu-se a partir de investigações topográficas que a Basílica de São Pedro olhava para o ocidente. De forma que, se o sacerdote quisesse celebrar olhando para o Oriente – como exigia a tradição litúrgica – tinha que se situar atrás do povo, colocando o altar no átrio, próximo as portas. Como o túmulo de Pedro fica próximo à abside, e o altar fora construído sobre este, o sacerdote tinha que celebrar voltado, fisicamente, para o povo e para o oriente. Então, por influência da arquitetura da Basílica de São Pedro, tida como normativa, uma série de Igrejas de Roma foram construídas a partir deste modelo.

Já, sobre a posição versus populum ser adotada a fim de aproximar o sentido ulterior da celebração litúrgica com a ceia/refeição pascal, é desmitificada por Louis Bouyer, segundo podemos observar:

"A ideia de que uma celebração diante do povo seja primitiva, em particular a da ceia eucarística, não possui outro fundamento senão o de uma errada concepção do que seria uma refeição na antiguidade, fosse ela cristã ou não. Em nenhuma refeição da era cristã o presidente de uma assembleia de comensais ficava de frente para os outros participantes. Estes ficavam todos sentados, ou reclinados, no lado oposto de uma mesa em forma de sigma... De nenhuma parte, portanto, na Antiguidade cristã, poderia vir a ideia de colocar-se diante do povo para presidir uma refeição. Ao contrário, o caráter comunitário da refeição era posto em destaque exatamente pela posição contrária, isto é, pelo fato de que todos os participantes ficavam do mesmo lado da mesa" (BOUYER; in RATZINGER, 1999, p.68).

A esta visão de banquete, vale ressaltar que a Eucaristia não pode ser descrita exatamente pelo termo refeição ou banquete. Cristo, com efeito, instituiu a novidade do culto cristão dentro do contexto da ceia pascal judaica. E ao ordenar que repetíssemos o que ele fez, falava do ato novo, a finitude do sacrifício expiatório do templo a partir do seu Sacrifício Vicário na Cruz, e não do banquete pascal como tal. Vale lembrar que a própria liturgia sinagogal, que era exclusivamente liturgia da palavra, pois os sacrifícios eram reservados ao Templo de Jerusalém, foram ressignificadas cristãmente. “Esta nova imagem conjuntural não podia, enquanto tal, ser simplesmente extraída da ‘refeição’, mas do conjunto de templo e de sinagoga, de palavra e de sacramento, de dimensão cósmica e histórica” (RATZINGER, 1999, p. 68-69). Segundo Bouyer, nunca tivemos notícia de que se tenha atribuído importância, ou certa atenção, ao fato do ministro celebrar com o povo diante ou atrás de si. Os textos antigos, falam sim, que o celebrante devia dizer a anáfora (cânon ou oração eucarística), e todas as outras orações, voltado para o oriente. Mesmo nas igrejas onde permitia-se que o sacerdote estive-se voltado para o povo, quando este estava no altar, todos (sacerdote e assembleia) deviam voltar-se para o oriente (BOUYER; in RATZINGER, 1999, p. 69).



Grande parte do preconceito moderno para com a posição versus Deum, é proveniente da perda do sentido interior da oração. Disto surgem expressões como “de costas para o povo” ou ‘celebração virada para a parede”, fruto da incompreensão do sentido, que leva, a crer que a Missa é algo feito pelo padre para o povo. E é aqui que está o grande problema que essa mudança de direcionamento da posição da oração gerou, obviamente que de forma involuntária.

Um dos discursos dos liturgistas modernos é que a posição versus Deum, e principalmente toda a liturgia pré-conciliar, excluem a participação dos fiéis dando "protagonismo" apenas ao sacerdote. No entanto, apesar do padre realizar todas as ações rituais na "Missa Antiga", o protagonista sempre foi Deus. O culto era prestado a Deus, por meio do Sacrifício Vicário de Cristo. Hoje, porém, a celebração, muitas vezes esvaziada de seu sentido essencial de culto prestado a Deus, e preenchida do sentido de celebração para o povo, onde o padre tem que chamar a atenção dos fiéis com uma série de artifícios “criou uma clericalização como jamais existira antes” (RATZINGER, 1999, p.69). O padre tornou-se o verdadeiro centro da celebração, ao passo dos fieis chegarem a padres mais fiéis as normas litúrgicas, e dizerem: “Por que o senhor não celebra como padre fulano?” “O sacerdote voltado para o povo dá à comunidade o aspecto de um todo fechado em si mesmo. Ela não está mais em sua forma – aberta para a frente e para o alto, mas se fecha sobre si mesma (RATZINGER, 1999, p.70). O celebrante ou presidente, como preferem chamar os liturgistas modernos, “torna-se o verdadeiro ponto de referência de toda a celebração. Tudo converge para ele. É para ele que devemos olhar, é do seu ato que participamos, é a ele que respondemos; é a sua criatividade que sustenta o conjunto da celebração” (RATZINGER, 1999, p.68). A atenção é cada vez menos Deus, e cada vez mais as pessoas. Os sacerdotes e as equipes de liturgia passam a improvisar e criar liturgias próprias. Não se celebra mais a Liturgia da Igreja, não se quer mais se seguir a um “esquema predisposto” (rito). Aqui se encaixa muito bem a frase de Dom Henrique Soares da Costa, Bispo de Palmares-PE: “O que é que eu vou fazer pra levantar a galera? Nada, porque não é programa de auditório”.

3. Como resolver o problema da orientação, direcionando a liturgia para o seu real destinatário?

Antes de qualquer coisa é preciso fazer com que nossas comunidades reencontrem novamente o sentido da "orientação da liturgia". É preciso compreender que quando formamos a assembleia litúrgica, estamos celebrando não para nós mesmos, mas para Deus. É fundamental que os sacerdotes entendam que não estão ali para agradar os fiéis com coreografias e invenções pessoais, mas então agindo ali in Persona Christi (na pessoa de Cristo) para renovarem de forma ritual o Sacrifício Salvífico da Cruz. Em segundo lugar, é preciso que o povo compreenda que a Celebração Eucarística não é um espetáculo que se deva assistir, aplaudindo quando se gosta, e criticando quando nos decepcionamos. Pela Missa eu entro em outra dimensão, eu assumo algo que me está prometido, eu toco a eternidade da história da salvação, pois o ato redentor do calvário sai do passado, atualizando-se no presente, e encaminhando-me para o futuro, que é a vida eterna que alcançarei graças a Jesus Cristo morto e ressuscitado. Tudo isto pode ser ajudado a compreender por sinais externos. Afinal de contas “a liturgia se serve de sinais sensíveis” (Sacrosanctum Concilium. n.7), para falar do mistério de Cristo.

Seria então o caso de retomarmos a posição versus Deum, como posição ordinária do Rito Romano?

Embora exista um posicionamento da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, publicada em seu veículo oficial o boletin Notiae, em 1993, na qual o dicastério da Cúria Romana afirma como válidas para o Novus Ordo (Rito Novo) tanto a posição versus Populum como a versus Deum, o próprio Papa Bento XVI, que durante o seu pontificado celebrou várias vezes versus Deum, nos dá a resposta: “Nada é mais prejudicial para a liturgia que colocar tudo de ponta-cabeça continuamente, ainda que não se trate realmente de verdadeira novidade” (RATZINGER, 1999, p.72). Ou seja, seria altamente prejudicial, nos dias de hoje, de uma hora para a outra voltar completamente à posição versus Deum. O papa orienta que em alguns casos essa posição pode ser adotada, como por exemplo capelas de institutos de formação ou casas religiosas, em paróquias com um maduro espírito litúrgico e em certas celebrações. Para os outros casos, que são a maioria, assim ele orienta: 

“A direção voltada para o oriente estava em intima ligação com o ‘sinal do filho do homem”, a cruz, que anuncia o retorno do Senhor. Bem depressa o oriente foi relacionado como sinal da Cruz. Onde não for possível voltar-se juntos para o Oriente de maneira explícita, a cruz pode servir como Oriente interior da fé. Ela deve situar-se no centro do altar e ser o ponto para o qual converge tanto o olhar do sacerdote quanto o da comunidade orante. Deste modo, seguimos a antiga invocação pronunciada no início da Eucaristia: ‘Conversi ad Dominum’ – voltai-vos para o Senhor. [...] Entre os fenômenos verdadeiramente absurdos de nosso tempo, cito o fato, de que a cruz seja colocada em um lado para deixar livre o espaço para olhar para o sacerdote. Mas a cruz, durante a Eucaristia, representa um incômodo? O sacerdote é mais importante que o Senhor?” (RATZINGER, 1999, p. 72-73)

Para concluir, acrescento que orientação pura e simplesmente pela orientação não tem sentido. Não adianta passar a por o crucifixo no centro do altar ou passar a rezar a Missa na posição versus Deum, sem antes criar nos fiéis a orientação interior da oração para o Deus, Uno e Trino.
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ARRANJO BENEDITINO (Cruz ao centro ladeado de velas) NA BASÍLICA DE SÃO PEDRO

ARRANJO BENEDITINO EM PARÓQUIA DESCONHECIDA

ARRANJO BENEDITINO NA CANÇÃO NOVA, CACHOEIRA PAULISTA - SP

ARRANJO BENEDITINO NA PARÓQUIA N. SRA. DO BOM CONSELHO, BELO JARDIM - PE
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REFERENCIA BIBLIOGRÁFICA 

RATZINGER, Joseph. Introdução ao Espírito da Liturgia. 2ª Ed. São Paulo: Edições Loyola, 2014.

CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Constituição sobre a Sagrada Liturgia, Sacrosanctum Concilium. In VIER, Frei Frederico (Coord). Compêndio do Vaticano II: constituições, decretos e declarações. 29ª Ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2000.

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