sábado, 9 de janeiro de 2016

O Batismo do Senhor e o nosso Batismo!!!

Amanhã a Liturgia da Igreja celebrará a Festa do Batismo do Senhor, conclusão do Tempo do Natal. A partir deste momento, segundo os evangelhos sinóticos, que Jesus começa o seu ministério público de anúncio da boa-nova do Reino dos céus.

É também pelo batismo que "tornamo-nos membros de Cristo, somos incorporados à Igreja e feitos participantes de sua missão" (Catechismus Catholicae Ecclesiae, n. 1213). Portanto, para entendermos a razão e a missão do nosso batismo, é preciso entender primeiramente o que era o batismo pregado por João Batista, e como Jesus ressignifica esse batismo ao recebê-lo.

Comecemos primeiramente lendo o relato evangélico narrado segundo São Mateus:
"Nesse tempo, veio Jesus da Galiléia ao Jordão até João, a fim de ser batizado por ele. Mas João, tentava dissuadi-lo, dizendo: 'Eu é que tenho necessidade de ser batizado por ti e tu vens a mim?' Jesus, porém, respondeu-lhe: 'Deixa estar por enquanto, pois assim nos convém cumprir toda a justiça'. E João consentiu. Batizado, Jesus subiu imediatamente da água e os céus se abriram e ele viu o Espírito de Deus como uma pomba vindo sobre ele.  Ao mesmo tempo, uma voz vinda dos céus dizia: 'Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo'." (Mt 3,13-17)
O relato é claro: Jesus procura João para ser batizado. Isto pressupõe, que o Batista vinha realizando este ritual a algum tempo e que, também, muitas pessoas acorriam a ele: "Então vieram até ele de Jerusalém, toda a Judeia e toda a região vizinha ao Jordão. E eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os pecados" (Mt 3,5-6). Aqui chegamos a centralidade do batismo pregado por João. Seu ritual tinha como pano de fundo o arrependimento do pecado. O morrer do modo velho de ser, para o renascimento de uma vida nova, convertida. Esse ato não era algo novo para os judeus, "a declaração dos pecados; o judaísmo daquele tempo conhecia várias confissões formalmente genéricas dos pecados, mas também a confissão totalmente pessoal, na qual eram enumerados cada um dos atos pecaminosos" (Gnilka, 1986, p.68 apud RATZINGER, 2007, p.32).

Portanto, o ritual no Jordão não era algo novo, pelo menos não no tocante ao centro da mensagem. A novidade trazida por João Batista é uma demonstração exterior do arrependimento dos pecados. É este "ato concreto" que dá nome ao ritual. A palavra Batismo é a tradução da palavra latina "Baptismus", que por sua vez é uma variante do grego "βαπτισμω", que significa "imergir", "banhar", "lavar", "derramar". A imagem do "rio" possui, aqui, dois significados. Nele se reconhece a simbologia da morte representada no ato de mergulhar, por trás do qual está a memória do Diluvio. Como também é tido como o grande doador de vida nas regiões desérticas do Oriente Médio: Nilo (Egito), Tigre e Eufrates (Mesopotâmia), Jordão (Palestina), etc (RATZINGER, 2007, p.32). Sendo assim, no ato de mergulhar e submergir das águas temos a personificação do espírito batismal: morte do homem velho e renascimento do homem novo.

Concluímos então que o centro do batismo pregado por João é a conversão dos pecados, exteriorizados pelo ato de imergir e submergir das águas do Jordão, simbolizando a morte e o renascimento. Surge, no entanto, a seguinte pergunta: Por que Jesus, que era sem pecado, necessita receber o batismo de conversão pregado pelo Batista?

É óbvio que Jesus não precisava passar por este ritual. Isso fica evidente quando João diz: "Eu é que tenho necessidade de ser batizado por ti e tu vens a mim?" (Mt 3,14). No entanto Jesus responde: "Deixa estar por enquanto, pois assim nos convém cumprir toda a justiça" (Mt 3,15). Este "cumprir toda a Justiça", significa levar a término a realização de tudo o que fora escrito sobre o Messias. Aqui encaixa-se o que fora dito no profeta Isaías: "Pelo seu conhecimento, o justo, meu Servo, justificará a muitos e levará sobre si as suas transgressões" (Is 53,11). Ao mergulhar no Jordão, Jesus, que não tinha pecado, toma sobre si, de forma simbólica, os pecados da humanidade em todo o curso da história. E pelo sinal da morte e do renascimento, simbolizados nas águas correntes, prefigura a sua morte e ressurreição que exterminará de uma vez por todas a culpa da humanidade, abrindo-lhe os portões do Reino Celeste.

Aqui Jesus ressignifica o batismo pregado por João. A conversão e o perdão dos pecados tornam-se realidade plena, como antecipação do que acontecerá na Cruz. E pela cruz, os batizados, são verdadeiramente perdoados dos seus pecados. Aqui aparece o Sacramento = Sinal. O episódio da cruz está preso em um passado. Nós não podemos voltar no tempo e pôr-nos ao lado de Maria e João. Porém, as graças da Cruz chegam até nós pelos sacramentos recebidos, e o batismo é justamente a porta para as graças da cruz.  "O Batismo de João na água torna-se pelo e perfeito com o batismo de Jesus na vida e na morte. Seguir o convite para o batismo significa então entrar no lugar do batismo de Jesus e, assim, na sua identificação conosco, receber a nossa identificação com Ele. O ponto da sua antecipação da morte tornou-se para nós agora o ponto da nossa antecipação da ressurreição" (RATZINGER, 2007, p.34).

Agora que entendemos a essência do batismo de João e sua ressignificação em Jesus Cristo, resta-nos entender a vocação essencial a qual cada um de nós é chamado pelo nosso batismo.

Pelo Batismo nós recebemos o perdão dos pecados e somos assimilados ao corpo místico de Cristo. E é nesta assimilação a Cristo que está o cerne da vocação batismal!

A partir do Banho da Regeneração e de nossa união a Igreja e ao seu Senhor, nós devemos nos tornar, segundo uma antiga expressão latina, “Alter Christus” (outro Cristo). Sendo assim, todo batizado é chamado a seguir, de forma total e incondicional, o exemplo de nosso Senhor Jesus Cristo através das três dimensões cristológicas que nos unem a Ele através do batismo: Sacerdócio, Profetismo e Realeza.

Vejamos o que o Catecismo da Igreja Católica fala a respeito destas três dimensões:
Ao entrar no povo de Deus pela fé e pelo Batismo, participa-se na vocação única deste povo: na sua vocação sacerdotal – “Cristo Senhor, sumo-sacerdote escolhido de entre os homens, fez do povo novo ‘um reino de sacerdotes para o seu Deus e Pai’. Na verdade, pela regeneração e pela unção do Espírito Santo, os batizados são consagrados para serem uma casa espiritual, um sacerdócio santo”.
“O povo santo de Deus participa também da função profética de Cristo», sobretudo pelo sentido sobrenatural da fé, que é o de todo o povo, leigos e hierarquia, quando “adere indefectivelmente à fé transmitida aos santos de uma vez por todas”, aprofunda o conhecimento da mesma, e se torna testemunha de Cristo no meio deste mundo.
Finalmente, o povo de Deus participa na função real de Cristo. Cristo exerce a sua realeza atraindo a Si todos os homens pela sua morte e ressurreição (Cf. João 12,32). Cristo, Rei e Senhor do universo, fez-Se o servo de todos, pois “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida como resgate pela multidão” (Mt 20, 28). Para o cristão, “reinar é servi-Lo”, em especial “nos pobres e nos que sofrem, nos quais a Igreja reconhece a imagem do seu Fundador pobre e sofredor”. O povo de Deus realiza a sua “dignidade régia” na medida em que viver de acordo com esta vocação de servir com Cristo.
“De todos os regenerados em Cristo, o sinal da cruz faz reis, a unção do Espírito Santo consagra sacerdotes, para que, independentemente do serviço particular do nosso ministério, todos os cristãos espirituais no uso da razão se reconheçam membros desta estirpe real e participantes da função sacerdotal. De facto, que há de tão real para uma alma como governar o seu corpo na submissão a Deus? E que há de tão sacerdotal como oferecer ao Senhor uma consciência pura, imolando no altar do seu coração as vítimas sem mancha da piedade?” (Catechismus Catholicae Ecclesiae, n. 784-786).

Assim como o Senhor resumiu os dez mandamentos em dois (Cf. Marcos 12,28-34). Essas três dimensões podem ser resumidas em uma só. Todo cristão é chamado “a ser santo como o Pai do céu é Santo” (Mateus 5,48). Portanto, se conseguirmos viver de forma plena todas essas dimensões alcançaremos aquela vocação original, encontrada no livro do Gênesis e para qual formos criados: Sermos imagem e semelhança de Deus (Cf. Gênesis 1,27).

Para concluir, tomo as palavras de Santo Agostinho:
“Estamos num mundo santo, bom, reconciliado, salvo, ou melhor, em vias de salvação, mas desde já salvo em esperança – pois já fomos salvos, mas na esperança (Rm 8,24). Com efeito, neste mundo, que é a Igreja, seguidora fiel de Cristo, disse ele a todos: Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo (Mt 16,24). Esta palavra não deve ser ouvida como dirigida apenas às virgens e não às esposas; nem só para as viúvas e não para as casadas; nem só para os monges e não para os maridos; nem só para os clérigos e não para os leigos. Pois toda a Igreja, todo o corpo, todos os seus membros, diferentes e distribuídos segundo suas próprias tarefas, devem seguir o Cristo. Siga-o toda a Igreja que é uma só, siga-o a pomba, siga-o a esposa, redimida e dotada pelo sangue do Esposo. Nela encontra lugar tanto a integridade das virgens como a castidade das viúvas e o pudor dos casais" (AGOSTINHO, 586).
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REFERÊNCIAS
 
ÉCOLE BIBLIQUE DE JÉRUSALEM. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Edições Loyola, 1999

RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré: do batismo no Jordão a transfiguração. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007  

GOSTINHO, Santo. A vocação universal a santidade. Sermão 96, 4: (PL 38, 586).

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