quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Relativismo Cultural e Sínodo

Por HENRIQUE HALISON*

Neste mês de outubro a Igreja vive um período de grande graça com a celebração da XIV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que este ano discute as realidades tangentes à família no mundo moderno.

Dentro dos debates sobre este tema é impossível aos padres sinodais não entrarem no mérito de algumas questões espinhosas de doutrina que, muitas vezes, colocam a Igreja como vilã perante o que a sociedade atual classifica como “novas formas de família”. Entendendo-se pelo termo, principalmente, os casais de segunda união e os núcleos “familiares” formados por pessoas do mesmo sexo.

A Igreja sempre foi muito clara, ao longo dos séculos, sobre seu posicionamento diante destas realidades, e isto nunca foi, ademais, motivo para grandes conflitos entre os pastores de almas e seus rebanhos. No entanto, observamos crescer nas últimas décadas, principalmente por parte de grupos ideológicos e da mídia secular, as críticas tecidas contra a firmeza destes posicionamentos doutrinários.

Mas o que leva um número cada vez maior, até mesmo de fiéis, a questionarem o posicionamento da Igreja sobre estes temas?

Este questionamento das verdades, que observamos no mundo pós-moderno, é fruto de uma corrente de pensamento sócio-filosófica que começou a se formar a partir do século XIX com os escritos de Engels e Marx. Como fundamento desta corrente ideológica é a famosa frase contida no Manifesto do Partido Comunista: “Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas”.[1] 

Nas últimas décadas esta forma de pensamento enveredou para a radicalidade do relativismo cultural, segundo o qual os valores de moral, ética, fé, etc, são suplantados pelo contexto do momento: "eu posso ou não fazer isto ou aquilo, refletindo apenas acerca da minha vontade pessoal e do meu direito a felicidade". A partir deste ponto começa uma deturpação moral segundo a qual acha-se natural e aceitável toda e qualquer coisa, usando como desculpa a "evolução cultural da sociedade".

Dentro desta perspectiva o casamento não deveria mais ser encarado como um vínculo estável até o fim da vida porque o tempo mudou e hoje é normal as pessoas se separarem. Não existiria mais a definição de homem e mulher porque a sexualidade é uma construção social e não uma definição biológica. A partir desta realidade outras afirmações, tão absurdas quanto, poderiam tornar-se verdade: não devo mais viver a fraternidade porque em um mundo competitivo quem não segue o “cada um por si” não prospera e fica para traz. A evolução tecnológica criou um mundo particular autossuficiente e por isso não existiria mais a necessidade de interagir com outrem.

No entanto, será que realmente todos os valores herdados e fundamentados ao longo da historia estão obsoletos? Ou será que é a nossa permissividade que nos leva acreditar nestes conceitos a fim de ficarmos com a consciência em paz?

O então Cardeal Joseph Ratzinger já denunciava os prejuízos do relativismo hodierno as vésperas do início do conclave de 2005, no qual acabou sendo eleito Papa com o nome de Bento XVI.

Quantos ventos de doutrina conhecemos nestes últimos decênios, quantas correntes ideológicas, quantas modas do pensamento... A pequena barca do pensamento de muitos cristãos foi muitas vezes agitada por estas ondas lançada de um extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo, até à libertinagem, ao coletivismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo e por aí adiante. Cada dia surgem novas seitas e realiza-se quanto diz São Paulo acerca do engano dos homens, da astúcia que tende a levar ao erro (cf. Ef 4, 14). Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, muitas vezes é classificado como fundamentalismo. Enquanto o relativismo, isto é, deixar-se levar "aqui e além por qualquer vento de doutrina", aparece como a única atitude à altura dos tempos hodiernos. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades.[2]

Não é apenas o papa emérito Bento XVI que alerta sobre os perigos deste relativismo do: “eu quero, eu posso, eu faço”. A mais de dois mil anos São Paulo alertava sobre os perigos do permissivíssimo, quando escrevia aos Coríntios “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm” (1Cor 6,12).

Em uma postagem recente em sua página no Facebook, o Pe. Demétrio Gomes do clero da Arquidiocese de Niterói-RJ e membro do Opus Dei, aborda esta questão da cultura do “Direito da felicidade”:
Entre os falsos direitos criados pelo homem está o perigoso "direito à felicidade". O suposto "tenho direito a ser feliz" tornou-se argumento sentimental para justificar a arbitrariedade moral, falta de compromisso com a verdade objetiva, e renúncia a tudo aquilo que supõe dificuldade. Enquanto o homem não se convencer que a felicidade é um dom - não um direito - que supõe a capacidade de sacrifício pelos demais, terminará encontrando, em sua busca egocêntrica de si mesmo, sua própria e desesperadora solidão.

Fica claro, portanto, que os valores judaico-cristãos permanecem sólidos e válidos mesmo para a sociedade moderna. E que são as pessoas, muitas vezes influenciadas por fortes discursos ideológicos, que acabam por desprezá-los voluntariamente.

No entanto, não queremos negar, com esta explicação, a gravíssima e urgente necessidade da Igreja rever algumas formas no trato pastoral dos fiéis que padecem nestas situações delicadas, que embora frutos de correntes ideológicas erradas são uma realidade presente, jogando a culpa exclusivamente nos mesmos, e eximindo a Esposa de Cristo da responsabilidade do cuidado com o seu rebanho.

Cabe ao “Sínodo das Famílias” abrir um maior espaço para estas pessoas, sem, no entanto, ferir a doutrina da Igreja sobre tais temas, baseando-se unicamente em um discurso de misericórdia e caridade, tão ouvido nos últimos anos, a partir da eleição do Papa Francisco.

Sim, as palavras do Papa sobre a caridade e a misericórdia são de extrema importância. Porém, o Santo Padre em nenhum momento dá sinais de que esta ação misericordiosa deve suplantar a verdade contida na doutrina da Igreja. O maior exemplo sobre a vivência da misericórdia vem de Nosso Senhor Jesus Cristo, misericórdia encarnada e caridade por excelência, que andava, sim, com as prostitutas, os cobradores de impostos, os pecadores. Porém estes indivíduos, citados muitas vezes como prova indefectível de que Jesus não excluía a ninguém, passaram por um profundo processo de conversão, e só assim, passaram a fazer parte do convívio de Cristo. Estas personagens, apesar de um passado de erros, ouviram a voz do Senhor e mudaram de vida: a adúltera arrependeu-se e deixou de pecar; Mateus largou a banca de impostos e foi atrás do Jesus; Zaqueu restituiu a quem roubou e não fraudou mais; Pedro chorou amargamente arrependido as três renúncias no pátio do sumo-sacerdote e depois ouviu da boca de Jesus “Apascenta meus cordeiros” (Jo 21,15).

A caridade a qual a Igreja é chamada a ser arauto, é acima de tudo uma caridade na verdade, pois “só na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida”[3]. Não adianta nada, por exemplo, casais de segunda união serem admitidos a Comunhão Eucarística, se continuam vivendo em adultério, acabam por somar um pecado mortal (Lc 16,18) a um sacrilégio que é receber a Santíssima Eucaristia fora do estado de graça.
Ninguém pode tomar parte nela (comunhão eucarística) se não acreditar na verdade do que entre nós se ensina, se não recebeu o banho para a remissão dos pecados e o novo nascimento e se não viver segundo os preceitos de Cristo [...] Aquele que quiser receber Cristo na comunhão eucarística deve encontrar-se em estado de graça. Se alguém tiver consciência de ter pecado mortalmente, não deve aproximar-se da Eucaristia sem primeiro ter recebido a absolvição no sacramento da Penitência. [...] Hoje em dia e em muitos países, são numerosos os católicos que recorrem ao divórcio, em conformidade com as leis civis, e que contraem civilmente uma nova união. A Igreja mantém, por fidelidade à palavra de Jesus Cristo (“quem repudia a sua mulher e casa com outra comete adultério em relação à primeira; e se uma mulher repudia o seu marido e casa com outro, comete adultério”: Mc 10,11-12), que não pode reconhecer como válida uma nova união, se o primeiro Matrimónio foi válido. Se os divorciados se casam civilmente, ficam numa situação objetivamente contrária à lei de Deus. Por isso, não podem aproximar-se da comunhão eucarística, enquanto persistir tal situação. Pelo mesmo motivo, ficam impedidos de exercer certas responsabilidades eclesiais. A reconciliação, por meio do sacramento da Penitência, só pode ser dada àqueles que se arrependerem de ter violado o sinal da Aliança e da fidelidade a Cristo e se comprometerem a viver em continência completa. (CIC 1355; 1415; 1650)[4]

Desta forma a Igreja provocaria um mal muito maior. Pois achando usar de caridade para com os casais impedidos de comungar, os estaria levando a um erro e, de certa forma, referendando o seu pecado como certo. Para eles que comungariam indignamente ocorreria o que nos ensina Santo Tomás de Aquino: “Dá-se ao bom como ao perverso, mas o efeito é bem diverso: vida e morte traz em si, Pensa bem: igual comida, se ao que é bom enche de vida, traz a morte para o mau”.[5] E acarretaria um mal ainda maior para os pastores de almas, por não cuidarem do redil lhes confiando pelo Bom Pastor. Pois assim disse o Senhor: “A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido” (Lc 12,48).

É preciso, portanto, achar formas eficazes e doutrinariamente aceitáveis de fazer com que estes casais sejam acolhidos com amor e solicitude, sem no entanto gerar escândalo para os demais fiéis ao parecer que a situação irregular passa a ser normal e aceita como valida, pondo em dúvida a indissolubilidade do matrimônio. 

[1] MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista 1848. Porto Alegre: L&PM, 2001. 
[2] RATZINGER, Cardeal Joseph. Homiliana Santa Missa “Pro Eligendo Romano Pontífice”. Vaticano, 18 de Abril de 2005. 
[3] BENTO XVI, Papa. Carta Encíclica Caritas in Veritate. 3 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2009. 
[4] SANTA SÉ. Catecismo da Igreja Católica. Brasília: Edições CNBB, 2013. 
[5] Sequência Lauda Sion da Missa da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso senhor Jesus Cristo

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