sábado, 30 de maio de 2015

SANTISSIMA TRINDADE - Uma Interpretação Iconográfica do Dogma Trinitário segundo Rublev

Celebramos neste domingo (31/05) a Solenidade da Santíssima Trindade. Ao longo de séculos, tanto a Igreja Latina como as Igrejas Orientais, buscaram formas de representar o mistério da Santíssima Trindade. A forma de representação mais famosa é o chamado "ícone da Trindade", às vezes também nomeado de “o ícone dos três Anjos", do iconógrafo Russo André Rublev.

É também chamado de ícone “da hospitalidade de Abrão”. Desde os primeiros séculos do Cristianismo, a narração bíblica da visita dos três estranhos a Abrão e Sara (Gn 18, 1-22) foi interpretada como uma manifestação da Santíssima Trindade. Já pelo IV século o historiador da igreja Euzébio de Cesárea escreveu que desde os tempos antigos existiu um quadro da Santíssima Trindade, na forma de três anjos, onde três estranhos apareceram à Abrão. Os Santos Padres entenderam este evento como uma demonstração, até mesmo indireta, da Trindade, ou como uma demonstração do Filho de Deus, acompanhado por dois anjos. Muito antes de Rublev, existiram muitos iconógrafos que fizeram essa representação iconográfica desta cena, incluindo Abrão e Sara que servem os anjos e freqüentemente um criado que mata um cordeiro para a refeição. Mais ninguém teve a iluminação e a ousadia de Rublev.

I. A Trindade aparece a Abraão no Antigo Testamento (cf. Gn 18)

O cenário da referida cena é um lugar que se chama Mambré, uma passagem próxima à cidade de Caná que se localizava à distância de aproximadamente 30 quilômetros ao sul de Jerusalém. Gn 18 relata a historia de um ancião sentado na entrada da tenda debaixo da sombra do carvalho, se abrigando do calor do sol do meio dia, conhecida como a pior hora do dia quando o sol emite seus raios sem misericórdia; era um dos mais quentes dias de verão; por isso desejava o homem sentar debaixo da árvore para sentir um pouco da umidade de sua sombra. Esse venerável ancião é Abraão, pai dos fieis, de uma obediência cega incomparável a Deus que o acolheu e o tornou seu predileto. Deus dialogou com ele selando uma promessa de que lhe abençoaria a descendência. Desejou então aparecer na figura das três pessoas: “Bem-aventurado és Abraão por ter visto e recebido a Divindade Una em três pessoas” [1]. Ergue Abraão sua visão para a luz resplandecente vendo três homens de pé à sua frente. Prostrou-se até o chão diante deles mesmo sem saber de suas identidades, iniciando o seu encontro com eles, dialogava com eles, tratando-os ora no singular, ora no plural. Abraão os acolheu conforme as normas e a tradição da hospitalidade local, desde o lavar dos pés, o preparo dos alimentos e a fabricação do pão até a distração digna do hóspede. Abraão sabia que estava diante da presença de Deus; Quando os visitantes anunciaram a Sara, já com avançada idade, que após um ano seria mãe de um menino e que se chamaria Isaac que significa “Deus sorri”, essa anunciação provocou risos em Abraão (cf. Gn 17,17), e em Sara (cf. Gn 18, 12). Riso de espanto, dúvida ou de alegria? O importante é que nada é impossível a Deus. A estéril, a de idade avançada e a virgem dão a luz por sua vontade. Isaac é o cordeiro, a oferenda que anuncia o sacrifício da Gólgota, o verdadeiro cordeiro. Aqueles hóspedes que as Escrituras ora chamam de homens, ora de anjos, são a visão da Trindade que se transfigurou para Abraão e lhe descobriu sua intenção de castigar Sodoma e Gomorra. Então, após ter certeza que estava diante da presença de Deus, Abraão mostra sua coragem, perseverança e convencimento em interceder em prol da humanidade pecadora, seu diálogo com Deus tem muita humildade e muita coragem. Porém os pecados de Sodoma são maiores, por isso Deus destruiu o mal causador da destruição.

Ícone de Rublev
II. Características do ícone de Rublev

O tema era ousado, mas a genialidade de André Rublev permitiu-lhe usar o tema da hospitalidade de Abraão para fazer um ícone de uma grande beleza e de qualidade artística que evoca o mistério da Santíssima Trindade, como também a encarnação do Filho de Deus e a Redenção. O ícone evoca um sentimento de paz, de serenidade, de harmonia que se transmite ao espectador. A obra de Rublev não é uma "representação" da Trindade, pois isso é impossível e contrário aos cânones da iconografia da Igreja Ortodoxa. São reduzidos ao mínimo possível os elementos históricos da narração bíblica - Abraão e Sara não aparecem no ícone de Rublev, mas permanecem, por exemplo a casa de Abraão, o carvalho de Mambré e a pedra, que contribuem para aprofundar o ensino do ícone na Trindade, a encarnação e a Redenção.

Essa cena que representa a hospitalidade de Abraão aos visitantes celestes inspirou muitos escritores de ícones na história da Igreja, sendo um tema de comum acesso nos diferentes paises do mundo ortodoxo. Há por exemplo uma pintura existente no museu de Pinaque em Atenas, que remota ao fim do XIV século, que apresenta três anjos ao redor de uma ceia festiva repleta de utensílios e alimentos, e ao seu redor Abraão e Sara os servindo. Outra obra semelhante, búlgara, no museu clerical de Sofia, remota do XVII século; outra também em Moscou Roak Tartiakov remota o XVII século, da escola dos pintores do Kzar, estando também pintado nela uma série representativa das passagens do livro de Gênesis, como a vinda dos anjos, a prostração de Abraão, o sacrifício de Isaac, a historia de Ló e sua esposa transformada em estátua de sal, etc... Essa representação então existe na tradição ortodoxa.

Porém qual foi a renovação que venho pela obra de André Rublev e que transformou seu quadro numa obra prima mundial de magnífico esplendor? Qual é o atributo que a fez tão famosa mundialmente até para os não-ortodoxos, e talvez para os não-cristãos também?

Rublev tomou essa representação da hospitalidade de Abraão aos anjos como ponto de partida, abstraindo as pessoas, os utensílios, os alimentos e todos os apetrechos, isto é, abstraiu do acontecimento histórico e a devolveu para sua origem que é a eternidade; despiu o quadro de todos os detalhes criados, enriquecendo a visão geral com o rico e refinado clima celeste, sobrando somente o cálice na mesa e um galho de uma árvore e uma vista lateral do Templo. Distinguido assim a Trindade na sua verdadeira forma como é e sempre foi desde antes da criação do mundo, tentando com toda humildade criar a vida compassada dentro da Trindade, como se estivesse inspirando o vento eterno compondo as melodias do amor representativas na essência da Divindade. É obvio que a genialidade artística de Rublev contribuiu na criação desse versículo artístico que muito foi comentado pelas opiniões artísticas mundiais. Sua beleza é como sua perfeição nas duas visões: a artística e a dogmática, o mestre acrescentou no seu quadro acréscimos sobre sua grande capacidade no uso do pincel, usou tudo aquilo que absorveu na sua vida monástica de informações teológicas retiradas das Sagradas Escrituras e da vida litúrgica, meditando no clima de abstinência, oração e silencio. Adicionou a isso, o gosto refinado na escolha das cores e a beleza dos rostos, a perfeição no que diz respeito às medidas e à versatilidade dos corpos, à simplicidade da formação e à elegância dos significados, à graciosidade dos olhares e à combinação dos traços, à leveza dos movimentos e ao esplendor das luzes que refletem deles.

Quem vê o ícone de longe crê que é uma bola de fogo vermelha e azul numa base dourada induzindo o sentimento de que tudo estivesse ardendo em brasa no espírito da fervorosa aparição, como se os três anjos fossem a assembléia eterna na visão de um arbusto em chama ardente que clama a quem olha inclinado: “Eis um lugar Santo”. Em 1515, na inauguração da Catedral da Dormição em Moscou, que estava enfeitada com ícones e quadros, obras dos alunos do mestre Rublev, tendo entre elas o ícone dos ícones o qual foi pintado pelo próprio Rublev, houve um espanto dos presentes. Ao se depararem com aquele ícone clamaram o metropolita, os bispos e todos os fiéis juntos, dizendo: “em verdade o céu se abriu e desvendou-se a magnificência de Deus [2].

No fim de 1904, ao término da restauração das antigas obras de arte, que retirou os ornamentos de metal, limpando os ícones das várias camadas acumuladas sobre eles no decorrer dos anos, apareceu a obra na sua verdadeira e completa face, manifestando-se num magnífico resplendor, conquistando a admiração de todos os membros da comissão que se abalaram com a beleza do ícone que foi descoberto, e disseram: “podemos afirmar que não há nada que se compara a essa obra de arte nem no seu resumo teológico, nem ao seu significado simbólico e nem a sua beleza artística” [3].

Representação da Trindade inspirada no Ícone de Rublev
III. Visão Histórica

Na segunda metade do século XIV houve um grande desenvolvimento simultâneo de dois extremos, a cultura e a religião.

O Santo Sérgio Rodannez, padroeiro da Rússia é o santo de maior popularidade nos séculos da Idade Média. Nascido numa família de posses e de alta posição social, Sérgio preferiu abandonar toda a fortuna de sua família para viver uma vida de renúncias. Recolheu-se desde sua juventude numa grande floresta no centro da Rússia, onde foi rodeado por vários seguidores e discípulos. Iniciou a construção de mosteiros, sendo o primeiro deles o mosteiro da Trindade no norte de Moscou, atualmente chamado de Zagorsk, que se tornou ponto de iluminação na Rússia. Ensinou aos agricultores a melhor forma de plantar, contribuiu nas reconciliações entre eles, a ponto de até podermos dizer que uniu toda a Rússia do século XIV ao redor da Igreja dedicada à Trindade, ou seja: ao redor de Deus. Após sua morte não deixou nenhuma pesquisa ou escrito teológico, porém toda sua vida fora dedicada à Santíssima Trindade, base de suas incessantes meditações. Dedicou sua vida anunciando a união e o amor entre os que o rodeavam, ensinando-os a meditar na Trindade para superar o ódio que divide o mundo. Na memória do povo Russo, permaneceu Sérgio como pessoa que fora enviada do céu para proteger seu país e que também indicou de forma concreta o mistério da Trindade e sua Unidade. Essa luz que foi entornada nele o transformou numa imagem transparente, radiante e resplandecente na pureza e na Luz.

Enquanto Sérgio era abade, Rublev se tornou um monge no mosteiro da Trindade. Aí se dedicou e se aperfeiçoou na pintura, nos ateliês do mosteiro, os quais eram os mais importantes ateliês de arte sacra daquela época. Porém Rublev deixou o mosteiro por um determinado período para ir a Moscou trabalhar como artista e ao retornar ao mosteiro, o seu superior já tinha falecido no ano de 1392.

Após ter passado alguns anos da morte de seu superior, um dos alunos pediu ao monge Rublev, que tinha se tornado um dos mais famosos pintores, que pintasse um ícone da Trindade em memória de seu falecido mestre. Rublev que era um eremita fiel e de fama digna, de caráter incomparável e pureza de coração, e de profunda vida espiritual, atendeu ao pedido que lhe foi feito, dando início à pintura. Dizem que Rublev, nos seus momentos de descanso, sentava-se junto ao seu amigo e aluno de frente ao ícone celeste admirando-o e elevando sempre seus pensamentos à Luz Divina, tentando efetivar o objetivo do Santo Sérgio nas cores e na iluminação. Sempre meditava o versículo do Santo Evangelho que diz: “para que sejam um como nós o somos...” (Jó 17,11b); a unidade e o amor eram a sua única fixação.

Não há dúvidas que a humildade era uma das características básicas para esse monge; era como se nele tivesse sido aberto um vazio total que permitiu a Deus fazer escorrer a Luz da Trindade para o seu interior, iluminando o seu coração, seu ser e sua mente, até tornar todo toque de seu pincel num clamor de glorificação e incenso de louvor ao céu, propagando o aroma da Trindade e expandindo como um perfume no mundo dos fiéis na comunhão dos Santos. Era como se o próprio Espírito Santo o conduzisse e orientasse seu pincel para ajudar aquele artista a apresentar essa contemplação celeste nesse patamar de beleza. Essa obra magnífica lhe custou muitos esforços, cansaço e oração; porém, vendo o resultado, teve a recompensa. Sua obra, entre os ícones, é uma benção que paira sobre a humanidade e um ponto de meditação e fonte de profunda iluminação espiritual.

III. A teologia trinitaria fluindo do ícone de Rublev

Os três anjos reunidos ao redor da mesa, ao redor do alimento celeste, regozijam-se no apaziguamento, na serenidade e no sentimento de tranqüilidade e de paz que brotam do seu ser. Esse descanso não é paralisação, mas é delírio ou embriaguez; expressa o espanto e admiração. O cálice que carrega a imagem do cordeiro é o principal motivo de sua atenção, e está presente no coração da Trindade desde a eternidade, por isso há um sentimento de tristeza que se forma nas suas faces combinado com o da alegria. Suas asas douradas encobrem a maior parte da superfície do quadro. Na sua acomodação há leveza e agilidade; o equilibro do tamanho do corpo normalmente na arte iconográfica é sete vezes maior que o tamanho da cabeça, mas nesse ícone Rublev aumentou o tamanho do corpo, tendo feito isso propositadamente para destacar os anjos numa imagem esbelta e marcante.

Eis que Eles estão num diálogo permanente; a semelhança entre Eles é clara e proposital para expressar a consubstancialidade. Não podemos distinguir entre Eles, a não ser por um único gesto que diferencia um do outro, a inclinação dos corpos e as cores de suas roupas. Houve uma dúvida sobre a identidade do anjo que está sentado no centro: perguntavam alguns especialistas se representava o Pai ou o Filho. Não entraremos no mérito da discussão, mas seguiremos a opinião do teólogo Paul Evdokimov que se baseia em provas que diz: “o anjo da direita não apresenta problema algum; é o Espírito Santo”. A dúvida afeta o anjo do centro é ele o Pai ou o Filho? “O anjo da esquerda tem o nome de Py, que significa o Filho, o anjo da direita, o de Puiltos: o Espírito Santo; e o anjo do meio o de Ai: representa Deus Pai” [4].

Cada um dos anjos carrega um báculo que representa o poder Uno, cada um apontando ao símbolo que o representa. O báculo do Pai aponta para a árvore da vida que carrega o fruto da vida eterna: nas matinas de Natal recita-se “o anjo que carrega a espada ardente se afastou da árvore da vida por que seus frutos nos serão dados através da comunhão”[5]. A árvore da vida não será violada como fez Adão, por isso, Deus o afastou dela, e viu por bem não nos dar seus frutos a não ser através da Cruz. O báculo do Filho, que está representado pelo anjo sentado à esquerda no quadro, aponta para o altar, para a Igreja, o seu corpo; porém o báculo do Espírito Santo, que está inclinado um pouco para a direita e está apontando para as rochas pintadas numa forma de escadas, é a inspiração que se declina na montanha, montanha de Sião, montanha de Tabor, e outros. É a elevação, o espanto, a supremacia profética, o andar superior, a sala de pentecostes.

O espantoso nesse quadro é que ele contém uma expressão de estabilidade predominante e, mesmo assim, carrega com ele o seu conteúdo de movimento que se mescla num movimento circular coordenado que se inicia no pé direito do anjo que está à direita e que toca a escada com uma excepcional delicadeza como se estivesse isento do peso da matéria, passando para o inclinar de sua cabeça que atrai com ela a rocha e a árvore, querendo com isso dizer que o mundo inteiro é atraído em direção do Pai pelo Espírito, o mundo é chamado para se voltar ao Deus Pai. Conduz com ela a inclinação da cabeça do anjo central pairando finalmente na posição vertical do anjo esquerdo como se estivesse num recipiente, e o que acrescenta um certo esplendor na visão é justamente a visão contrária que é o desaparecimento da qualidade que vai além da aparência (característica de todo ícone).

O movimento confirma ainda na expressão do olhar, pois nos ícones, normalmente o olhar se depara com o expectador, e as faces são pintadas como se estivessem se defrontando com quem as admira, mas aqui onde os olhares estão numa corrente circular, os rostos são pintados meio que de perfil; as roupas largas cooperam no movimento participando na demonstração da beleza dos corpos e dos traços dos rostos e suas minuciosidades.

FONTE: Ecclesia Brasil
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NOTAS:
[1] Un Moine de l’Église d’Orient (Père Lev Gillet), « La signification spirituelle de l’icône de la Sainte Trinité peinte par André Roublev », Irenikon, XXVI, 1953, pp. 133-139 ; aussi dans Contacts, XXXIII, 1981, pp. 351-358.
[2] http://www.activitaly.it/immaginicinema/rublev.html
[3] http://www.activitaly.it/immaginicinema/rublev.html
[4] Evdokimov, op. Cit., pp.285-286.
[5] Liturgia de Natal no ritual Bizantino: Liturgia das horas (Orologion) pg: 306

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