quinta-feira, 19 de março de 2015

Solenidade de São José, Padroeiro da Igreja Universal

São José, esposo de Maria e pai legal do Filho de Deus, é certamente um dos santos mais venerados pela piedade popular. No entanto, quase só ouvimos falar dele como “o carpinteiro de Nazaré” ou “o padroeiro dos operários”. Esses títulos são muito legítimos, mas estão longe de nos dar ideia do píncaro de santidade ao qual Deus houve por bem elevá-lo.

Ele nunca será devidamente conhecido e venerado por nós se repetirmos a triste cegueira dos habitantes de Nazaré, considerando-o apenas como o pobre carpinteiro.

Deus em sua perfeição só escolheria por pai legal um homem santo, à altura da santidade de Maria Virgem. Um salmo parece já prever: “O Senhor escolheu para Si um homem segundo o seu coração” (1 Sm 13, 14).

O Evangelho louva-o numa única e breve frase: era justo. Tal elogio, à primeira vista de um laconismo desconcertante, nada tem de medíocre. Na linguagem bíblica, o adjetivo “justo” designa todas as virtudes reunidas. No Antigo Testamento, justo é aquele a quem a Igreja dá o nome de santo: justiça e santidade exprimem a mesma realidade.

Príncipe da casa de Davi

Ao serrar a madeira, fabricar u móvel ou um arado, José mantinha sempre seu espírito voltado para o sobrenatural, elevando-se para o aspecto mais sublime e considerando tudo sob o prisma de Deus. Isso contribuía para o maior primor dos trabalhos por ele executados.

Sua humilde condição de trabalhador manual em nada lhe diminuía a nobreza. Reunia em si, de forma admirável, as duas classes sociais: como legítimo herdeiro do trono de Davi, conservava em seu porte a distinção própria a um príncipe, aliando-a, porém, a uma alegre simplicidade.

Para ele, mais importante do que a nobreza de sangue é aquela que se alcança pelo brilho da virtude; e esta, ele a possuía largamente.
Esponsais entre duas almas virgens

A Providência preparou-o assim para ser o esposo da Santíssima Virgem. É conhecido o modo pelo qual foi escolhido: dos pretendentes convocados ao Templo, apenas o seu bastão floriu.

Maria Santíssima, porém, fizera voto de virgindade por achar-se indigna de ser antepassada do Messias. Esse ato de humildade valeu-lhe o milagre de ser a Mãe do Messias, Jesus, o Filho de Deus. Apesar do seu voto, submeteu-se à ordem de contrair matrimônio. Quem seria seu esposo? perguntava-se a si mesma.

Se conservava algum receio, deve este ter-se dissipado quando soube que o escolhido era José, em cuja alma Ela já vira, por seu aguçado dom de discernimento, as altíssimas virtudes.

Podemos bem imaginar que, já no primeiro encontro, a graça tocou a José — ele também fizera voto de virgindade —, levando-o a consagrar-se como escravo de amor Àquela que, mais do que esposa, já considerava como sua Senhora e Rainha.

Homem a altura de ser esposo de Nossa Senhora

Para fazermos uma ideia exata da magnitude de sua personalidade, devemos imaginá-lo como sendo uma versão masculina de Nossa Senhora, o homem dotado de sabedoria, força e pureza bastantes para governar as duas criaturas mais excelsas saídas das mãos de Deus: a Humanidade santíssima de Nosso Senhor e a Rainha dos anjos e dos homens.

O matrimônio na antiga Lei era realizado em duas etapas: havia os esponsais, pelos quais passavam a pertencer um ao outro, consideravam-se esposos. Contudo, as bodas e a coabitação eram adiadas por um ano para dar tempo da esposa completar o enxoval e ao marido preparar a casa. Maria e José cumpriram essas formalidades.

Deus prova aqueles a que ama 

Foi durante o intervalo entre os esponsais e as bodas que o anjo aparece a Maria e dá-se a Encarnação do Filho de Deus. Maria, sabedora de que sua prima Isabel esperava o nascimento de João Batista, foi prestar-lhe ajuda. Três meses depois, após o nascimento do Precursor, Maria volta a Nazaré. Depois do seu regresso José não tardou em perceber os primeiros sinais de gravidez em Maria, na qual ele não teve parte e Maria, por humildade não lhe revelou que concebera o Messias por obra do Espírito Santo.

Pela Lei mosaica ele devia denunciá-la e Ela seria morta apedrejada, ou dar-lhe o libelo de divórcio, em que o repúdio do esposo lançaria suspeita sobre Ela. O que fazer, pois José, apesar de desconhecer a Encarnação do Verbo, tinha absoluta certeza da inocência e santidade de sua esposa?

A solução encontrada por José não se achava nos livros da Lei, mas em seu coração: “Resolveu deixá-La secretamente” (Mt 1, 19). Agindo assim, salvaguardava a fama de sua esposa, pois Ela seria vista como uma pobre jovem abandonada pela crueldade de um homem sem palavra. A culpa recairia toda sobre ele.

Além do mais, renunciava também à sua própria felicidade: tinha de abandonar Nossa Senhora, o maior tesouro da terra. Sofrimento imenso, pois para ele o convívio com Maria significava um verdadeiro Paraíso.

Via-se agora obrigado a sacrificar aquilo que mais apreciava em sua vida! Passaria seus dias longe, venerando um mistério que não entendera.

Durante alguns dias, José maturou sua resolução, decidido a pô-la em prática. Numa noite preparou seus pobres pertences e deitou-se. Tal era o seu equilíbrio de alma que dormiu a ponto de sonhar. No sonho, o anjo aparece-lhe: “José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que n’Ela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo de seus pecados” (Mt 1, 20-21).

O prêmio: adorar Deus humanado no seio da esposa

É impossível medir o gozo de José ao despertar do sonho. Logo ao alvorecer, correu a encontrar-se com sua esposa. Certamente nada disse a Maria, mas seu semblante era mais eloquente do que as palavras.

De joelhos, adorou a Deus no seio virginal de sua Mãe. Um Deus que também era seu filho, pois o anjo manifestou com clareza sua autoridade sobre o fruto de sua esposa: “um filho a quem porás o nome de Jesus”.

Uma criatura dando conselhos ao Criador…

Quantas vezes teve nos braços o Menino Jesus? O dia inteiro convivendo, observando-O rezar, falar, fazer todos os atos de sua vida comum… Nessa contemplação constante, para a qual ele tinha uma alma maravilhosamente apta, recebia graças extraordinárias e se deixava modelar.

Por vezes, o Menino parava diante dele e dizia: “Peço-vos um conselho: como devo fazer tal coisa?” E São José se comovia: quem estava lhe pedindo um conselho era o próprio Filho de Deus!

Antes de Jesus começar sua vida pública José entregou sua alma ao Criador. Foi-lhe outorgada a graça de expirar entre os braços de Deus, seu Filho, e da Mãe de Deus, sua Esposa.

De corpo e alma no céu

Sobre o prêmio eterno recebido por José, afirma S. Francisco de Sales: “Se é verdade o que devemos acreditar, que, em virtude do Santíssimo Sacramento que recebemos, os nossos corpos hão de ressuscitar no dia do Juízo Final, como podemos duvidar de que Nosso Senhor tenha feito subir ao Céu, em corpo e alma, o glorioso São José, o qual teve a honra e a graça de trazê-Lo tantas vezes em seus braços benditos? Não resta dúvida, pois, de que São José está no Céu em corpo e alma”.
(Condensado de “O varão a quem Deus chamou de pai”, Irmã Clara Isabel Morazzani, EP, na revista “Arautos do Evangelho”, nº 63, março de 2007, pp.18-25)

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