quarta-feira, 18 de março de 2015

A interpretação "Ratzingeriana" da Parábola do Filho Pródigo

A parábola dos dois irmãos (o filho pródigo e o que ficou em casa)
e do pai bondoso (Lc 15,11 -32)

OBS.: Grifos nossos

Esta, que é talvez a mais bela parábola de Jesus, é conhecida com o nome de "parábola do filho pródigo". De fato, a figura do filho perdido é tão impressionantemente descrita, e o seu destino, tanto no bem como no mal, vai tão diretamente ao coração, que ela deve aparecer como o centro autêntico do texto. A parábola, porém, tem na realidade três personagens principais. J. Jeremias e outros propuseram que seria melhor designá-la como a parábola do Pai bondoso — Ele seria o autêntico centro do texto. 

P. Grelot, por sua vez, chamou a atenção para a figura do segundo irmão como totalmente essencial e, a partir disso, era da opinião — com razão, parece-me — de que a designação mais adequada seria "a parábola dos dois irmãos". Isso resulta em primeiro lugar da situação à qual a parábola responde. Ela é em S. Lucas assim representada: "Todos os publicanos e pecadores vinham ter com Ele, para O escutarem. Os fariseus e os escribas irritaram-se e disseram: Ele se dá com os pecadores e até come com eles" (Lc 15,ls). Encontramos aqui dois grupos, dois "irmãos": publicanos e pecadores; fariseus e escribas. Jesus responde-lhes com três parábolas: com a das 99 ovelhas que ficaram em casa e a ovelha perdida; com a parábola da dracma perdida; e, finalmente, acrescenta outra e diz "um homem tinha dois filhos" (Lc 15,11). Trata-se, portanto, dos dois.

Com isto, o Senhor agarra uma tradição muito antiga: a temática dos dois irmãos percorre todo o Antigo Testamento, a começar com Caim e Abel, passando por Ismael e Isaac, até Esaú e Jacó, e espelha-se de um outro modo de novo na relação dos 11 filhos de Jacó no que se refere a José. Na história das eleições domina uma notável dialética entre os dois irmãos, que permanece no Antigo Testamento como uma questão aberta. Jesus retomou esta temática numa nova hora da ação de Deus na história e imprimiu-lhe um novo rumo. Em S. Mateus encontra-se um texto semelhante à nossa parábola dos dois irmãos: um declara que quer fazer a vontade do pai, mas não a realiza; o outro diz não à vontade do pai, mas depois se arrepende e realiza aquilo de que tinha sido encarregado (Mt 21,28-32). Também aqui se trata da relação dos pecadores e dos fariseus; também aqui o texto, em última instância, apela a um novo sim para o chamado de Deus.


Mas procuremos então agora seguir a parábola passo a passo. Lá está, em primeiro lugar, a figura do filho pródigo, mas logo no princípio vemos também a grandeza do coração do pai. Ele atende ao desejo do filho mais novo pela sua parte da riqueza e divide a herança. Dá ao filho a liberdade. Ele pode imaginar o que o filho mais novo vai fazer, mas deixa-lhe o caminho livre. 

O filho vai "para uma terra distante". Os Padres da Igreja viram aqui principalmente o interior alheamento do mundo do pai — o mundo de Deus, a ruptura interior da relação, a extensão do afastamento do que é próprio e do que é autêntico. O filho esbanja a sua herança. Ele quer simplesmente gozar. Quer saborear a vida até o extremo, ter, segundo seu pensamento, "uma vida em plenitude". Não quer estar submetido a mais nenhum mandamento, a mais nenhuma autoridade: ele procura a radical liberdade; quer apenas viver para si mesmo; sente-se totalmente autônomo.

É difícil para nós ver aqui também o espírito da moderna rebelião contra Deus e contra a sua lei? O abandono de tudo o que até agora se tinha alcançado e a caminhada para uma liberdade sem limites? A palavra grega que está na parábola para a fortuna esbanjada significa, na linguagem da filosofia grega, "essência". O pródigo esbanja a "sua essência", a si mesmo.

No fim, está tudo gasto. Então, aquele que se tornara totalmente livre torna-se agora escravo: guardador de porcos, que seria feliz se recebesse o comer dos porcos como alimento. O homem que entende a liberdade como radical arbitrariedade da própria vontade e do próprio caminho vive na mentira, pois o homem, por essência, faz parte de um convívio, a sua liberdade é uma liberdade compartilhada; a sua essência traz em si mesma instrução e norma, e assim a liberdade seria esta interior unidade. Por isso, uma falsa autonomia conduz à escravatura: a história mostrou isto claramente. Para os judeus, o porco é um animal impuro — servir aos porcos é então a expressão da extrema alienação e da extrema miséria do homem. O totalmente livre tornou-se um escravo miserável.


Neste momento ocorre a "mudança". O pródigo percebe que está perdido. Que na casa de seu pai é que era livre e que os servos do seu pai são mais livres do que ele, que tinha julgado ser totalmente livre quando tomou sua herança e partiu. "Entrou em si mesmo", diz o Evangelho (Lc 15,17); e aparece aqui como uma palavra vinda de uma terra distante o pensamento filosófico dos Padres da Igreja: longe de casa, vivendo longe da sua origem, este homem tinha também se afastado de si mesmo. Ele vivia longe da verdade da sua existência.

A sua mudança, a sua "conversão", consiste em que ele reconhece, se concebe com alienado, que realmente foi "para o estrangeiro" e que agora regressa a si mesmo. E em si mesmo ele encontra a indicação do caminho para o pai, para a verdadeira liberdade de um "filho". As palavras que ele preparou para o seu regresso permitem-nos reconhecer a peregrinação interior que ele então atravessa. Ela é um estar a caminho da existência, que agora, atravessando todos os desertos, se dirige para casa, para si mesmo. Com esta explicação "existencial" do caminho de casa, os Padres da Igreja explicam-nos também o que é "conversão", que dores e que interiores purificações envolve, e devemos dizer tranquilamente que, assim, eles compreenderam corretamente a essência da parábola e, assim, nos ajudam a reconhecer a sua atualidade.


O pai "vê o filho de longe" e vai ao seu encontro. Ele ouve a confissão do filho e vê assim o caminho interior que o filho percorreu, vê que este encontrou o caminho da verdadeira liberdade. Por isso, o pai não o deixa acabar de falar, abraça-o e beija-o e manda preparar um grande banquete de alegria. É alegria porque o filho, que já "estava morto" (Lc 15,32) quando partiu com a sua fortuna e que agora vive, ressuscitou; estava perdido e "foi de novo encontrado".

Os Padres da Igreja colocaram todo o seu amor na explicação desta cena. O filho perdido torna-se para eles a imagem do homem em si, de "Adão", que somos todos — daquele Adão, de quem Deus foi ao encontro e que agora acolheu de novo na sua casa. Na parábola, o pai encarrega os criados de trazerem depressa "o melhor vestido". Para os Padres da Igreja, este "melhor vestido" é a referência ao vestido perdido da graça, com o qual o homem tinha sido vestido no princípio e que tinha perdido no pecado. Agora lhe é oferecido de novo este "melhor vestido" — o vestido do filho. Na festa, que é então organizada, eles vêem uma imagem da festa da fé, da eucaristia festiva, na qual é antecipada a eterna refeição festiva. Literalmente, segundo o texto grego, o primeiro irmão, ao regressar para casa, ouve "sinfonias e coros" — de novo para os Padres uma imagem para a sinfonia da fé, que transforma o ser cristão em alegria e em festa.

Mas o essencial do texto não está certamente neste pormenor; o essencial é agora claramente a figura do pai. É por ventura compreensível? Pode e deve um pai agir assim? P. Grelot chamou a atenção para o fato de que Jesus aqui fala totalmente com base no Antigo Testamento: o modelo desta visão de Deus, do Pai, encontra-se em Oséias (cf. 11,1-9). Fala-se em primeiro lugar da eleição de Israel e da sua traição: "O meu povo persiste na infidelidade; clamam por Baal, mas ele não os ajuda" (Os 11,2); "Mas Deus vê também como este povo está destroçado, como a espada brame nas suas cidades" (Os 11,6). E acontece exatamente o que é descrito na nossa parábola: "Como é que eu poderia abandonar-te, Efraim, como é que eu poderia entregar-te, Israel?... O meu coração volta-se contra mim. A minha compaixão inflama-me. Não posso executar a minha ardente ira, e não posso aniquilar outra vez Efraim. Porque eu sou Deus, não um homem, o santo no meio de ti..." (Os ll,8s). É porque Deus é Deus, o santo, que Ele age assim, como nenhum homem poderia agir. Deus tem um coração, e este coração volta-se, por assim dizer, contra Ele mesmo: encontramos aqui no profeta, como no Evangelho, a palavra de "compaixão", que é expressa com a imagem do corpo materno. O coração de Deus transforma a ira e muda o castigo em perdão.


Para os cristãos levanta-se agora a questão: onde se encaixa aqui Jesus Cristo? Na parábola somente aparece o Pai. Falta a cristologia na parábola? Sto. Agostinho tentou acrescentar a cristologia onde se diz que o pai abraçou o filho (Lc 15,20). "O braço do Pai é o Filho", diz. E aqui ele teria podido basear-se em Sto. Irineu, que caracteriza o Filho e o Espírito como as duas mãos do Pai. "O braço do Pai é o Filho", quando Ele coloca este braço nos nossos ombros como o "seu doce jugo"; então, não é nenhum peso nos carregar, mas sim um gesto de amorosa aceitação. O "jugo" deste braço não é peso, que nós devamos carregar, mas oferta do amor, que nos leva e que nos torna a nós mesmos filhos. Esta é uma lindíssima explicação, mas mesmo assim "alegoria", que claramente vai além do texto.

P. Grelot encontrou uma interpretação que é mais de acordo com o texto e que conduz a uma ainda maior profundidade. Ele chama a atenção para o fato de que Jesus, com as anteriores parábolas, justifica com o comportamento do pai a Sua própria bondade a respeito dos pecadores, a sua aceitação dos pecadores. Jesus torna-se assim "com o seu comportamento a revelação mesma daquele que Ele chamou de Pai". O olhar para o contexto histórico da parábola mostra por si mesmo uma cristologia implícita. "A sua paixão e a sua ressurreição fortalecem ainda mais este aspecto: como Deus mostrou o seu amor misericordioso para com os pecadores? Porque Ele 'morreu por nós quando ainda éramos pecadores'" (Rm 5,8). "Jesus não pode entrar no campo narrativo da parábola, porque Ele vive na identificação com o Pai celeste, refere o seu comportamento ao do Pai. O Cristo ressuscitado permanece hoje, neste ponto, na mesma situação que Jesus de Nazaré durante o tempo do seu serviço terreno" (p. 228s). Na realidade: Jesus justifica nesta parábola o seu comportamento à medida que o reconduz ao do Pai, que o identifica com Ele: deste modo, através da figura do Pai, Cristo está no meio da parábola como a concreta realização da ação paterna.


Agora entra em ação o filho mais velho. Ele regressa a casa vindo do trabalho no campo, ouve a festa em casa, informa-se acerca da causa da festa e fica muito zangado. Ele não pode simplesmente achar justo que a este vadio que dissipou com prostitutas toda a sua fortuna — o bem do Pai —, agora, sem prova nem tempo de penitência, imediatamente e com brilhante esplendor, lhe seja oferecida uma festa. Isto contradiz o seu sentido de justiça: uma vida de trabalho, que ele passou, parece sem importância perante o indecente passado do outro. Fica cheio de amargura: "Há tantos anos que te sirvo e nunca transgredi um sequer dos teus mandamentos", diz para o pai, "e nunca me deste nem sequer um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos" (Lc 15,29). Também com ele foi ter o pai, e agora lhe fala cheio de bondade. O irmão mais velho não sabe nada a respeito da mudança interior e das peregrinações do outro, do caminho para o longínquo afastamento, da sua ruína e do seu reencontrar-se. Ele só vê a injustiça. E aqui se mostra talvez que também o mais velho, mesmo que em silêncio, teria sonhado com uma liberdade sem limites, que ele interiormente se tornou amargo na sua obediência e não conhece a graça do que significa estar em casa, da verdadeira liberdade, que ele como filho tem. "Meu Filho, tu estás sempre comigo", diz-lhe o pai, "tudo o que é meu é também teu" (Lc 15,31). Ele lhe explica assim a grandeza de ser filho. São as mesmas palavras com as quais Jesus, na oração sacerdotal, descreve a sua relação com o Pai: "Tudo o que é meu é teu e o que é teu é meu" (Jo 17,10).

A parábola interrompe-se aqui; nada nos diz sobre a reação do filho mais velho. Mas também não pode continuar, porque neste momento a parábola transita imediatamente para a realidade: com estas palavras do pai, Jesus fala ao coração dos fariseus e dos escribas que murmuravam, que se irritavam por causa da bondade de Jesus para com os pecadores (Lc 15,2). Fica então totalmente claro que Jesus identifica na parábola a Sua bondade para com os pecadores com a bondade do pai e que todas as palavras que são colocadas na boca do pai Ele mesmo as diz aos piedosos. A parábola não explica qualquer realidade distante, mas trata daquilo que agora acontece através d'Ele. Ele procura conquistar o coração dos seus adversários. Ele os convida a entrarem e a se alegrarem nesta hora do regresso à casa e da reconciliação. Estas palavras permanecem como um implorante convite a se manterem no Evangelho. S. Paulo aceita este implorante convite quando escreve: "Pedimo-vos em vez de Cristo: reconciliai-vos com Deus!" (2Cor 5,20).


A parábola situa-se, assim, de um modo muito realista, no ponto histórico em que Jesus a expôs; mas ao mesmo tempo ela vai mais além do momento histórico, pois o convite de Deus continua presente. Mas a quem é que Ele se dirige agora? Os Padres da Igreja referiram de um modo muito geral o tema dos dois irmãos à relação entre judeus e pagãos. Não foi muito difícil para eles reconhecer, no filho depravado que se afastou para longe de Deus e de si mesmo, o mundo do paganismo, ao qual agora Jesus abriu as portas da graça para a comunhão com Deus e para os quais Ele agora faz a festa do seu amor. Também não foi difícil para eles reconhecer no filho que ficou em casa o povo de Israel, o qual, com direito, podia dizer de si mesmo: "Há tantos anos que te sirvo e nunca transgredi nem sequer um dos teus mandamentos" (a tradução alemã suaviza um pouco esta declaração: "nunca agi contra a tua vontade"). Precisamente da fidelidade à Tora aparece a fidelidade de Israel e também a sua imagem de Deus.

A explicação aplicada aos judeus não é injustificada, se assim a deixarmos ficar como a encontramos no texto: como aberta palavra de Deus dirigida a Israel, que está totalmente nas mãos de Deus. Mas observemos que o pai da parábola não só não contesta a fidelidade do irmão mais velho, como também expressamente confirma a sua filiação: meu filho, estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Portanto, será falsa a explicação, se dela se fizer uma condenação dos judeus, da qual não se diz nada no texto.


Se podemos considerar a explicação da parábola dos dois irmãos referida a Israel e aos pagãos como uma dimensão do texto, a verdade é que permanecem possíveis outras dimensões. Em Jesus, o que se diz do irmão mais velho destina-se não apenas a Israel (os pecadores que se dirigiam a Ele também eram judeus), mas sim a um perigo específico dos piedosos, daqueles que estão en règle com Deus, que estão em regra, como P. Grelot se expressa (p. 229). Grelot releva a pequena frase: "Nunca transgredi nem um sequer dos teus mandamentos". Deus é para eles sobretudo lei; eles se vêem numa relação jurídica com Deus e assim estão em ordem com Ele. Mas Deus é maior: eles devem converter-se do Deus-lei para o Deus maior, para o Deus do amor. Então eles não abandonarão a obediência, mas ela virá de uma fonte mais profunda e por isso maior, mais aberta e mais pura, mas sobretudo também mais humilde.

Acrescentemos com um ponto de vista mais amplo o que antes já fora recordado: na amargura da bondade perante a bondade de Deus, torna-se evidente uma amargura mais interior da obediência cumprida, que anuncia os limites desta obediência; interiormente eles mesmos teriam também partido para a grande liberdade. Existe uma silenciosa inveja por aquilo que o outro pôde permitir-se. Eles não atravessaram a peregrinação que purificou o mais novo e lhe permitiu reconhecer o que significa a liberdade, o que significa ser filho. Eles transportam a sua liberdade propriamente como servidão e não amadureceram para a verdadeira filiação. Também eles precisam ainda de um caminho; só o conseguem encontrar se derem simplesmente a Deus o direito de assumir a sua festa como a deles. Então, com a parábola, é Deus que por meio de Cristo fala conosco, nós, que permanecemos em casa, para que também nos convertamos verdadeiramente e estejamos alegres por causa da nossa fé.

_______________________________________________________
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Texto
  • RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré: do Batismo no Jordão à Transfiguração. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007. pág.179-187.
Obras Citadas no Texto
  • J. Jeremias, Die Gleichmisse Jesu, Göttingen, 1956.
  • P. Grelot, Les Paroles de Jésus Christ (Introduction à La Bible, Vouveau Testament 7). Desclée, 1986.
  • Augustinus, Sermones ed. G. Morin (Neuausgabe Caillau u. Saint-Yves) II 11, bei Morin S. 256-264. Deutsch bei: H.U. v. Balthasar, Augustinus. Das Antlitz der Kirche. Einsiedeln 1942 S. 92-99.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado suas opniões são muito importantes para nós!