sábado, 14 de março de 2015

História de um antigo símbolo do bom perfume de Cristo

O 4º Domingo da Quaresma era o dia em que os papa faziam a bênção da Rosa de Ouro que seria ofertada a personalidades importantes ou a santuários de renome.

Para recordar esta bela tradição, apresentamos um artigo do L'Osservatore Romano, datado de 09 de Janeiro de 2011,
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Bento XVI ofertando a Rosa de Ouro ao Santuário de Fátima-Portugal
Por ocasião da visita a alguns insignes santuários marianos, Bento XVI ofereceu uma rosa de ouro como sinal de piedade e de devoção. Trata-se de um gesto antigo, reservado ao Papa e que jamais caiu em desuso: Paulo VI ofereceu a rosa de ouro ao santuário de Fátima em 1965 e ao da Virgem de Guadalupe em 1966, enquanto João Paulo II a enviou ao santuário de Nossa Senhora negra de Jasna Góra em 1982.

A evidência dada, ao longo dos séculos, ao dom pontifício ofuscou o significado originário de tal gesto, que se inseria na liturgia romana das estações, procissões feitas no período quaresmal entre duas igrejas. Analogamente a outros ritos e tradições papais, também no caso da rosa de ouro, podemos distinguir dois períodos: antes de Avinhão e depois do regresso dos Papas a Roma.

No primeiro período, a rosa de ouro era benzida durante a Statio do IV Domingo de Quaresma que se celebrava na basílica de Santa Cruz em Jerusalém. Durante a liturgia do domingo Laetare, o Papa segurava com a mão esquerda, depois de a ter benzido, a rosa de ouro que em seguida depositava sobre o altar da basílica Sessoriana (Santa Cruz de Jerusalém). No final da celebração eucarística, o Sumo Pontífice voltava a pegar nela e conservava-a até voltar para a sede do patriarcado em São João de Latrão, oferecendo-a finalmente ao prefeito da Urbe (Roma), que participava no rito em nome da cidade.

O Ordo XI descreve pormenorizadamente tal celebração. Em solene cavalgada, o Papa ia do palácio lateranense à basílica da Santa Cruz, onde cantava a missa, pregava tendo na mão a rosa de ouro benzida e, depois de meditar sobre a liturgia do dia, mostrava-a ao povo, instruindo-o sobre o significado místico da mesma. No final da celebração voltava ao palácio lateranense em cavalgada com a rosa na mão. No pórtico da basílica, vestido de púrpura com meias de cor dourada, o prefeito de Roma — que o acompanhava a pé, servindo de palafreneiro — ajudava-o a descer do cavalo, segurando-lhe a estribeira. Depois de descer do cavalo, o Papa oferecia-lhe a rosa, que ele recebia genuflexo, beijando imediatamente depois o pé do Sumo Pontífice.

Após o regresso de Avinhão, começou-se a benzer a rosa de ouro no palácio lateranense. A partir dos meados de Quatrocentos passou-se a destinar para tal finalidade a sala dos Paramentos. O cerimonial de Patrizi Piccolomini e de Burcardo, publicado sucessivamente por Cristoforo Marcello, descreve a sequência ritual que, com algumas pequenas modificações, permaneceu invariada até ao século passado. O texto recorda que segundo a tradição, o Papa benzia a rosa de ouro no quarto domingo da Quaresma, durante o qual se canta Laetare Jerusalem . Destinada depois a ser oferecida pelo próprio Pontífice, imediatamente após a celebração da missa, a um príncipe, se estivesse presente no rito sagrado, ou a ser enviada a alguma personalidade ou instituição depois da consulta dos cardeais, «em círculo no seu quarto ou onde mais lhe agradasse».

Beato Paulo VI coloca o balsamo cm almíscar na Rosa de Oro
No início do rito, a rosa de ouro era colocada sobre um pequeno altar, especialmente preparado na sala dos Paramentos, com castiçais acesos. Depois de vestir o avental, a estola, o manto e a mitra, o Papa aproximava-se do altar onde tinha sido depositada a rosa. E, depondo a mitra, começava o rito com o versículo Adiutorium nostrum in nomine Domini , a saudação litúrgica e a oração de bênção. Em seguida, um clérigo de câmara, cota e roquete, segurava a rosa diante do Sumo Pontífice, que a ungia com o bálsamo e introduzia uma pequena parte de unguento, misturado com almíscar triturado no botão maior, onde se tinha realizado um pequeno recipiente. Bálsamo e almíscar eram-lhe apresentados pelo sacristão pontifício.

Imediatamente depois, infundindo o incenso que lhe era apresentado pelo primeiro cardeal dos sacerdotes, o Papa aspergia a rosa com a água benta e incensava-a. Em seguida, o clérigo de câmara entregava-a ao cardeal diácono que por sua vez a passava ao Papa, que ia assistir à capela com a rosa na mão esquerda, enquanto dava a bênção com a direita. Tendo chegado ao faldistório diante do altar, antes de se ajoelhar para um breve momento de adoração, o Papa apresentava novamente ao cardeal diácono a rosa, que era entregue ao clérigo de câmara, o qual a depositava no meio do altar, sobre um véu rosáceo bordado em ouro.

No final da missa, após a recitação da prece no faldistório diante do altar, o Papa retomava a rosa segundo as mesmas modalidades e voltava para a sala dos Paramentos, ou para os seus aposentos, aonde era introduzido o príncipe ou a personagem à qual a rosa estava destinada. Genuflexo aos pés do Sumo Pontífice, ele recebia o dom com as seguintes palavras: 
Accipe rosam de manibus nostris, qui licet immeriti locum Dei in terris tenemus, per quam designatur gaudium utriusque Hierusalem, triumphantis scilicet et militantis Ecclesiae, per quam omnibus Christi fidelibus manifestatur flos ipse speciosissimus, qui est gaudium, et coronam sanctorum omnium suscipe hanc tu dilectissime fili, qui secundum saeculum nobilis, potens ac multa virtute praeditus es, ut amplius omni virtute in Christo Domino nobiliteris tamquam rosa plantata super rivos aquarum multarum, quam gratiam ex sua ubertati clementia tibi concedere dignetur, qui es trinus et unus in saecula saeculorum. Amen. In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti ("Recebe das nossas mãos, como indigno vigário de Cristo sobre a terra, a rosa, com a qual se torna manifesto o júbilo das duas cidades de Jerusalém, tanto da Igreja triunfante como daquela militante, e pela qual a todos os fiéis de Cristo significou Ele mesmo, a flor mais esplendorosa, que constitui a alegria e coroa de todos os santos: aceita-a Tu, ó dilectíssimo filho, que na terra és nobre, poderoso e rico de virtudes, a fim de que, como a rosa plantada ao longo de abundantes cursos de água, assim todas as tuas virtudes sejam enobrecidas em Cristo Senhor. A ti, a partir da sua clemência infinita, se digne conceder tal graça, Aquele que é Uno e Trino nos séculos dos séculos. Amém. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo").

Se o destinatário não estivesse presente, a rosa era enviada através de uma legação especial, da qual faziam parte inclusive os portadores da rosa de ouro, membros do patriarcado romano, cujo encargo era previsto até à reforma da capela e da família pontifícia, levada a cabo por Paulo VI. A entrega da rosa era acompanhada por uma carta pontifícia, que explicava o seu significado, e por uma especial instrução dos mestres-de-cerimónia apostólicos a respeito dos ritos a serem observados.

A bênção da rosa era reservada sempre e unicamente ao Papa. Com efeito, quando ele estava fora de Roma — como aconteceu durante a visita de Pio VI a Viena, em 1782 — a rosa não era benzida, mas era exposta na capela papal aquela que tinha sido benzida no ano precedente. Se, durante o ano, não tivesse sido doada, benzia-se novamente a mesma rosa. E no caso, ao contrário, de um impedimento da parte do Sumo Pontífice, por doença ou por motivos de idade, a rosa era benzida na capela particular. Certas vezes, por causa do calendário que fazia coincidir o quarto domingo de Quaresma com a solenidade da Anunciação, a rosa era benzida na sacristia da basílica de Santa Maria "sopra Minerva", onde se celebrava a capela papal.

Rosa ofertada por Paulo VI ao Santuário de Aparecida
Originariamente, a rosa de ouro indicava principalmente alegria e júbilo pela Páscoa já iminente, e tinha um profundo significado cristológico, enquanto — como recitava a oração de bênção — ela representava o lírio dos vales, a flor dos campos: ou seja, Cristo. Era ao único Senhor que se pedia que a Igreja, por meio das boas obras, pudesse associar-se à fragrância daquela flor e difundir o bom perfume de Cristo no mundo. Assim, àqueles que a recebiam como dom era reconhecida a tarefa de transmitir o bom perfume de Cristo, mediante a própria vida e as obras ao serviço da Igreja. Também a oferta da mesma a uma igreja ou a um santuário mariano reconduzia ao mesmo significado: levar Cristo ao mundo.

No que se refere à origem de tal rito, sabemos que Leão IX (1049-1054) pediu aos mosteiros por ele fundados na Alsácia, que enviassem todos os anos a Roma uma rosa de ouro já fundida, ou a mesma quantidade de ouro suficiente para a realizar. A rosa devia chegar à cidade a tempo para a Statio quaresmal do domingo Laetare . Portanto, durante o pontificado de Leão IX a cerimônia da rosa de ouro já estava em vigor. Um erudito do século XVIII, Francesco Annivitti, reproduziu o texto de um manuscrito conservado no mosteiro de Santa Cruz em Jerusalém, que continha a homilia de Honório III proferida por ocasião do domingo Laetare de 1217, que atribuía a um beato Gregório Papa a introdução de tal rito. É difícil dizer de qual beato se tratava.

A Bento XIV — sobre cuja obra, também no campo litúrgico, talvez não se tenha escrito nem investigado suficientemente — devemos numerosas notícias úteis sobre este tema. Na sua carta Quarta vertentis , de 24 de Março de 1751, encontramos um pequeno tratado sobre a rosa de ouro, que ele enviava à sede metropolitana de Bolonha, sua antiga sede episcopal. Com efeito, o Papa Lambertini mandou estudar profundamente o significado e a origem da rosa, promovendo também alguns congressos, realizados na sua presença. Muitos escritores concordam em narrar que o alsaciano Leão IX quis submeter imediatamente à Sé Romana, isentando-o da jurisdição do bispo local, o mosteiro de Santa Cruz na diocese de Tulle. E para recordar esta liberdade, impôs que se enviasse ao Papa, todos os anos, oito dias antes do quarto domingo de Quaresma, uma rosa de ouro ou duas onças romanas deste mesmo metal. O pagamento de tal quantidade de ouro será pontualmente registrado no Liber censuum de Cencio Camerario.

Monsenhor Lonigio, mestre-de-cerimónias sob o pontificado de Paulo V, narra ao contrário que Leão IX teria pedido o pagamento da rosa de ouro à abadessa do mosteiro de Bamberg, como recordação da isenção da jurisdição do ordinário. Besozzi, outro erudito que tinha escrito sobre esta temática, observava que se Leão IX obrigou as monjas de Bamberg a enviar a rosa de ouro, a tradição de benzer esta rosa já existia havia bastante tempo. Bento XIV concordou com esta afirmação, e não considerava Leão IX autor do rito, enquanto a rosa de ouro já era consuete portari no quarto domingo de Quaresma: palavras que demonstrariam como o rito já tinha sido precedentemente introduzido e que o Sumo Pontífice alsaciano tinha transferido apenas a despesa da mesma ao seu mosteiro.

Portanto, podemos concordar com Bento XIV que se trata de um rito particularmente antigo, já em uso no tempo de Leão IX. Gaetano Moroni parece aceitar a hipótese de que "esta oferta sagrada desejada pelos Papas, em substituição do dom das chaves de ouro e de prata, que com a limadura das cadeias de são Pedro costumava benzer e enviar como oferta às grandes personalidades".

Rosa de Ouro ofertada por Bento XVI ao Santuário de Aparecida
Também a forma da rosa mudou com o tempo. Originariamente, era composta por uma única flor, tingida de vermelho no botão. Depois, o vermelho foi substituído por um rubi e por outras pedras preciosas. Sucessivamente, a rosa assumiu a forma de um ramo espinhoso com diversas folhas, florescido e, em cima, uma rosa maior em ouro puro. No meio da principal inseria-se uma pequena taça com uma tampa ou uma fina lâmina furada, em que o Papa derramava o bálsamo e o almíscar triturado, rito introduzido para imitar a fragrância suave da rosa e também para ressaltar o profundo significado cristológico que lhe era atribuído. Enfim, a partir do século XVI, começou-se a inserir o ramo de rosas num vaso e a substituir o ouro com a prata dourada. A introdução do vaso dificultará ao Papa segurá-la na mão esquerda, e por isso o clérigo de câmara que apresentava a rosa ao Sumo Pontífice terá a tarefa de a levar ao longo do percurso, desde a sala dos Paramentos até à capela, precedendo o Pontífice.

Revendo a longa lista dos mais de 180 destinatários da rosa de ouro, podemos ler também uma singular história do papado, que se entrelaça com acontecimentos grandes e pequenos, mas também com notas coloridas. A primeira rosa entregue fora de Roma coube a Fulcon de Angers, que tinha oferecido hospitalidade a Urbano II (1088-1099). As rosas doadas aos doges de Veneza eram, ao contrário, consideradas não como dom à pessoa, mas sim à República. A rosa que Bento XI enviou em 1304 ao convento dos dominicanos de Perúsia foi depressa vendida para suprir às necessidades dos pobres. Henrique VIII da Inglaterra recebeu duas rosas: a primeira de Júlio II, e a segunda de Leão X. As rosas oferecidas por Martinho V à basílica vaticana e por Clemente VII à confraria de Gonfalone farão parte dos despojos dos lansquenetes no saque de Roma do ano de 1527.

Em 1462 Pio II ofereceu-a a Tomás, o Paleólogo, irmão de Costantino XI, último imperador de Costantinopla, que no dia 29 de Maio de 1453 encontrou a morte perto dos muros da cidade, que caíra nas mãos dos turcos. Foi a extrema homenagem do Papa humanista à cultura de Bizâncio. Uma certa excentricidade foi maifestada por Sisto IV, que quis enviar à sua cidade de Savona não uma rosa de ouro, mas sim um ramo de carvalho, que aludia ao seu sobrenome e ao seu brasão. Alexandre VI, ao contrário, concedeu-a a César Borgia.

Rosa de Ouro ofertada por Leão XIII a princesa Isabel
Algumas rosas de ouro marcaram o restauro ou o embelezamento das grandes basílicas romanas, como aquela que foi doada por Paulo V à basílica vaticana para a trasladação dos Papas santos chamados Leão, ocorrida em 1608. Além disso, muitas rosas foram enviadas às catedrais onde precedentemente os Pontífices tinham sido bispos: Inocêncio XII em Nápoles, Urbano VIII em Espoleto, Bento XIV em Bolonha, para citar apenas alguns. Entre os santuários marianos, o de Loreto recebeu o maior número. Pio IX enviou-a a Maria Adelaide de Sabóia, esposa de Vitório Emanuel II, enquanto Leão XIII a ofereceu a Mary Caldwell, única burguesa que a recebeu, pelos méritos alcançados mediante a fundação da universidade católica de Washington. A última soberana italiana que a recebeu foi a rainha Helena, esposa de Vitório Emanuel III de Sabóia, em 1937, da parte de Pio XI.

Finalmente, é significativo observar como, a partir dos meados do século XVII, a rosa de ouro se tornará cada vez mais uma oferta destinada aos santuários marianos, às rainhas ou a personalidades femininas, preferindo-se para os homens outras condecorações cavalheirescas, de modo particular uma haste de milho ou o grande barrete, que benziam no Natal: também este era um sinal da mudança da percepção do valor simbólico do rito. 

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